A L2 que a Coinbase usou pra transformar 110 milhões de clientes em usuários onchain.
A Hyperliquid cresceu sem marketing e sem dinheiro. A Base fez o oposto: nasceu dentro da maior corretora dos Estados Unidos, com cento e dez milhões de clientes verificados do outro lado da porta. Onde a maioria dos projetos cripto começa gritando pra um deserto, a Base começou com a plateia já sentada.
Esse é o caso que este paper destrincha. Porque "ter distribuição" parece fácil, e quase nunca é. A Coinbase tinha a audiência, mas precisou inventar um motivo pra ela atravessar a ponte, um produto pra ela usar do outro lado, e uma cultura pra ela ficar. A Base é o estudo de como uma empresa de capital aberto usou marca, campanha e narrativa pra converter clientes de uma corretora em cidadãos de uma rede, e o que deu certo, o que colapsou no caminho, e o que sobrou de pé.
A lente é marketing. O sujeito é a Base. Não é teoria: é a sequência real de jogadas, em ordem causal, com a prova pública de cada uma, e com as rachaduras expostas no mesmo nível de honestidade dos acertos.
Vamos olhar como o Onchain Summer, o Jesse Pollak, os Basenames, o Base App e a ponte da Coinbase formaram uma máquina de aquisição, por que ela surfou uma fila de ondas de hype que subiram e despencaram, e o que isso ensina sobre construir marca quando a distribuição já é sua.

Antes do teardown, o retrato em seis dados. Cada um é desenvolvido nas jogadas a seguir, com a prova.
O básico: o que é uma L2. A Ethereum é segura, mas cara e lenta quando lotada. Uma "L2" (camada 2) é uma blockchain que roda em cima da Ethereum, herdando a segurança dela, mas processando transações fora da rede principal pra ficar rápida e barata. A Base é uma L2 construída sobre o OP Stack, o software aberto da Optimism. Em termos de marketing, a L2 é o produto; a Ethereum é a infraestrutura emprestada.
O que a Base é. Lançada em agosto de 2023, é a L2 incubada pela Coinbase, a maior corretora de capital aberto dos EUA (NASDAQ: COIN). O diferencial não é técnico, é de origem: ela nasce acoplada a uma empresa com cerca de 110 milhões de usuários verificados e um app que já está no bolso de milhões de pessoas. A Base é o caminho que a Coinbase abriu pra levar esse público "onchain".
O mercado em que ela joga. Do lado das L2s, a briga é com a Arbitrum e a própria Optimism, que juntas com a Base processam cerca de 90% das transações de camada 2. A Base entrou tarde nessa corrida e, mesmo assim, em pouco mais de um ano virou #1 ou #2 em quase toda métrica. A arma não foi tecnologia superior. Foi distribuição e marca.
Onde ela está hoje. #2 L2 por TVL (faixa de ~US$ 10,7 a 12,8 bilhões conforme a fonte, jun/2026), atrás da Arbitrum. Rebrand pra "Basechain" em 2025, upgrade Azul em mainnet (mai/2026) rumo a mais descentralização. E ainda sem token de rede lançado.
A Coinbase. Fundada por Brian Armstrong, a Coinbase é a corretora cripto de capital aberto mais conhecida dos EUA e, por anos, a porta de entrada padrão de quem comprava sua primeira cripto. O problema estratégico: a Coinbase ganhava taxa quando você comprava e vendia, mas perdia você no momento em que você queria fazer qualquer coisa "onchain", em DeFi, NFT, apps. A Base resolve isso: em vez de mandar o usuário pra fora, ela constrói o "fora" dentro de casa.
Jesse Pollak. Engenheiro que entrou na Coinbase em 2018 e passou a liderar a Base, Pollak fez algo raro num projeto de empresa grande: virou fundador-personagem. Escreve o próprio X ("não é um freelancer aleatório do Fiverr"), encarnou o bordão "stay based" e construiu uma identidade de builder que dá rosto humano a uma iniciativa corporativa. A CoinDesk o colocou entre os mais influentes de 2025.
A decisão que definiu tudo. A aposta não foi em ser a L2 mais rápida ou mais barata, várias eram. Foi em ser a L2 com a melhor distribuição. Toda a estratégia de marca, do Onchain Summer ao Base App, parte de uma premissa só: já temos o público; precisamos de marca, cultura e produto bons o bastante pra ele atravessar e ficar.
A Base não lançou com um post de "estamos no ar". Lançou com o Onchain Summer: uma temporada de 23 dias de drops, mints e experiências onchain, curada como um festival cultural. Trouxe marcas mainstream pra dentro, Coca-Cola, Atari, OpenSea, Zora, FWB, mais de 50 empresas e artistas, cada uma com um motivo concreto pro usuário clicar, conectar a carteira e fazer a primeira transação na rede.
Lançamento de blockchain normalmente é abstrato: "rede rápida e barata", ninguém sente. A Base trocou o conceito por um evento com data, marcas conhecidas e coisas pra fazer. O usuário da Coinbase não precisava entender de L2; precisava só querer o NFT da Coca-Cola. Cada marca emprestou sua audiência e sua credibilidade, e a Base coletou a primeira transação de centenas de milhares de carteiras.
A evidência. O Onchain Summer 2023 produziu 700 mil NFTs minerados entre 268 mil carteiras, com pico de 145 mil usuários e 1,4 milhão de transações em um único dia. Foram US$ 242 milhões bridgeados nas duas primeiras semanas. O drop "Masterpiece" da Coca-Cola sozinho arrecadou cerca de US$ 500 mil. A campanha não foi um custo de aquisição: foi um evento que pagou parte da própria conta e entregou a base inicial de usuários da rede.
Lição → transforme o lançamento num evento com data, marcas e coisas pra fazer; conceito não converte, experiência sim.O que eles fizeram. Na segunda edição (2024), a Base transformou a campanha cultural num funil de construtor. O Onchain Summer II trouxe um Buildathon com US$ 2 milhões (mais de 600 ETH) em prêmios, grants e créditos de gás, sponsors de peso como Stripe, Shopify, Zora e Farcaster, e oito trilhas de competição. Em 2025, a campanha virou um modelo retroativo de prêmios (Onchain Summer Awards, US$ 250 mil) que premia apps que já geraram engajamento real. Em paralelo, os programas Base Batches e Base Around The World levaram o recrutamento de builders pra seis regiões do mundo.
Usuário traz volume; builder traz produto, e produto traz mais usuário. Ao gastar em hackathon em vez de só em anúncio, a Base comprou o ativo que se compõe: cada app novo construído na rede é um motivo novo pra alguém usar a rede. O prêmio em dinheiro é o gancho; o verdadeiro retorno é o ecossistema que passa a vender a Base por conta própria.
O Buildathon de 2024 foi anunciado como "o maior hackathon onchain da história": 7.500+ builders e 1.250+ projetos. A edição inteira somou mais de 2 milhões de carteiras e 24 milhões de assets minerados. Recrutar construtor virou tão estratégico quanto recrutar usuário.
Integrou a rede no produto que a audiência já usava. Comprar cripto na Coinbase e mandar pra Base virou questão de poucos toques, sem ponte manual complicada, sem buscar a rede certa. O onramp, a carteira e o "comece na Base" passaram a viver dentro do app da Coinbase. A jogada de marketing mais subestimada da Base não é uma campanha, é a ausência de atrito entre ter o público e ativar o público.
Em cripto, o gargalo nunca foi interesse, foi fricção. A maioria dos projetos morre no "como eu coloco dinheiro nisso?". A Base herdou o canal que resolve exatamente esse passo, o canal regulado pelo qual milhões de americanos já tinham passado. Distribuição embutida transforma o custo de aquisição em quase zero: você não anuncia pra estranhos, você abre uma porta pra quem já está na sua casa.
A evidência. A combinação de canal pronto e campanha agressiva deu resultado raro em velocidade: a Base flipou a própria Ethereum em endereços ativos diários em junho de 2024, atingiu pico de ~12 milhões de transações por dia em janeiro de 2025 e somou 22 milhões de endereços ativos em 2024 (a16z, 3ª maior do mundo). Crescimento desse porte, em pouco mais de um ano, não se compra só com anúncio. Compra-se com distribuição mais marca.
Lançou os Basenames em agosto de 2024: nomes legíveis no formato seu-nome.base.eth pra substituir endereços de carteira impronunciáveis. Pollak adotou jesse.base.eth publicamente, e a comunidade seguiu. O que parecia um detalhe técnico (resolução de nome) virou um ato de marca: assinar "alguma-coisa.base.eth" é declarar a que rede você pertence.
Nome é identidade, e identidade é pertencimento. Quando milhares de pessoas trocam o avatar e o handle por algo.base.eth, cada uma vira um outdoor ambulante da rede. É o mesmo mecanismo de uma marca de roupa cujo logo o cliente paga pra exibir: a Base deu à comunidade um símbolo de tribo e a comunidade o vestiu de graça, espalhando a marca em cada perfil.
A evidência. Foram 70 mil nomes nas primeiras 36 horas, 400 mil em poucos dias e mais de 750 mil registrados desde então. Além do efeito de marca, os Basenames melhoraram a usabilidade da rede (reportou-se queda de 45% em transações falhas nas primeiras semanas). Identidade e função andaram juntas: cada nome é, ao mesmo tempo, uma melhoria de produto e uma peça de marketing que o próprio usuário carrega.
Personificou a marca num fundador. Em vez de comunicar como "Coinbase L2", a Base falou pela boca de Jesse Pollak: posts diários, presença constante, o bordão "stay based" e a estética do construtor que ama o que faz. "Based" virou ao mesmo tempo o nome da rede, um trocadilho com a gíria de internet ("based", autêntico, sem se importar com a opinião alheia) e uma identidade que a comunidade adotou como sua.
Empresa não gera lealdade emocional; pessoa gera. Um departamento de marketing soa institucional; um fundador que aparece todo dia, escreve o próprio texto e repete um bordão constrói algo que parece movimento. A Base pegou o calor humano que normalmente só projetos pequenos têm e injetou numa iniciativa de empresa de capital aberto, o melhor dos dois mundos: a distribuição de uma gigante com a alma de uma comunidade.
A evidência. A força do personagem se mede pelo reconhecimento de fora: a CoinDesk colocou Pollak na lista de mais influentes de 2025. E pela linguagem de dentro: "based" circula em Crypto Twitter como adjetivo independente da rede. Quando o nome da sua marca vira gíria de elogio, você comprou um espaço mental que nenhum anúncio aluga.
Em vez de empurrar um único caso de uso, a Base se posicionou como o palco onde a próxima onda da cultura cripto aconteceria, e cultivou cada uma. O friend.tech (SocialFi, 2023) estourou na Base e trouxe uma multidão. Depois vieram as memecoins e o $DEGEN, o boom de tokens de AI agents via Clanker, e os "content coins" da Zora. A Base se aliou a Farcaster e Zora, deu trilhos pra cada nova febre e colheu a atenção e o volume de cada ciclo.
Atenção em cripto é cíclica: cada temporada tem sua febre. Quem tenta criar a febre sozinho quase sempre erra. A Base fez algo mais esperto, ser a infraestrutura padrão de qualquer febre que surgisse. Não importava qual onda viesse, ela quebrava na Base. Isso manteve a rede no centro da conversa, mês após mês, sem depender de uma aposta única dar certo.
A evidência. O friend.tech sozinho levou os depósitos da Base de quase nada a mais de US$ 50 milhões e 136 mil usuários ativos diários no pico de 2023, alimentando o primeiro salto de TVL da rede. Cada ciclo seguinte renovou a atenção. Mas, como o teste de estresse vai mostrar, essa estratégia tem um custo embutido: quase toda onda que sobe, desce, e às vezes some.
Lição → não aposte numa febre, vire o palco onde toda febre acontece; assim você ganha em qualquer cenário.O que a Base fez. Em julho de 2025, no evento "A New Day One", a Coinbase rebatizou a Coinbase Wallet como Base App e a vendeu como um "everything app": rede social (via Farcaster), publicações que viram tokens (via Zora), trade no feed, mini-apps e o Base Pay, pagamento por aproximação em USDC (via Circle). A ideia: empacotar tudo o que a rede oferece num único produto de consumo, do jeito que o WeChat empacotou a vida digital chinesa.
Uma rede vale pelo que se faz nela. Empacotar social, pagamento e trade num app de consumo poderia transformar a Base de "infraestrutura pra developer" em "app pra pessoa comum", o passo que de fato levaria os 110 milhões pra dentro. A waitlist de mais de 1 milhão mostrou que o apetite existia.
O beta pagou mais de US$ 500 mil a criadores e teve adoção alta de mini-apps. Mas, como o próximo capítulo detalha, a aposta SocialFi do Base App foi revertida em poucos meses. A lição honesta: nem toda jogada de marketing vira acerto, e a coragem de pivotar faz parte do jogo.
Amarrou tudo numa missão única e repetível: trazer o próximo bilhão de pessoas pra onchain. Não é slogan de produto, é causa. Cada campanha (Onchain Summer, Basenames, Base App) deixou de ser uma ação solta e virou um capítulo da mesma história. E a missão tinha lastro de marca: a Base devolve parte da receita do sequencer ao Optimism Collective, posicionando-se como construtora de bem público, não extrativista.
Missão grande faz três coisas que anúncio não faz: dá coerência (toda campanha aponta pro mesmo norte), atrai talento (gente boa quer construir algo que importa) e gera tolerância (quando você erra, a causa segura a confiança). "Levar todo mundo onchain" é ambicioso o suficiente pra justificar campanha atrás de campanha sem soar repetitivo, porque cada uma é um passo no mesmo caminho.
A evidência. A missão deu coerência a uma execução de marketing que poderia ter virado uma colcha de campanhas desconexas. E o lado "bem público" tem números: no H1 de 2025, a Base gerou 87,2% da receita de sequencer da Superchain Optimism (US$ 42,4 milhões, Messari), contribuindo de volta ao Collective. A contribuição de volta segue uma fórmula: o maior entre 2,5% da receita do sequencer ou 15% do lucro. Daí a manchete crítica que pegou (The Block): a Base puxa a maior fatia da atividade da Superchain, mas devolve só esses 2,5% de "aluguel". A crítica de que essa contribuição é pequena demais é real, e voltamos a ela no teste de estresse.
1. O sequencer é centralizado. A Base roda num "sequencer" único, controlado pela Coinbase, ou seja, uma única empresa ordena as transações da rede. É ponto único de falha, vetor de censura e de extração de valor. Provou-se na prática: a rede teve um halt de 43 minutos logo após o lançamento (set/2023) e outro de 33 minutos em ago/2025, por falha no handoff do sequencer sob congestionamento. A Base atingiu o "Stage 1" da L2BEAT (abr/2025) e prepara o caminho pro Stage 2, mas, até lá, "descentralizada" tem asterisco.
2. O vácuo do token virou ressentimento. Anos de atividade sem airdrop criaram uma base que farmou na expectativa de um prêmio que nunca veio. A "exploração" anunciada em set/2025 não tem data nem alocação: "explorar" não é "lançar". E há um nó estrutural, a Coinbase precisa recompensar usuários sem prejudicar o acionista da COIN. O que pra uns é prudência, pra outros é extração.
3. A cultura que atrai também queima. A estratégia de surfar toda onda tem um custo: quase toda onda colapsou. O friend.tech foi de US$ 50 milhões em depósitos a US$ 21 de receita em 30 dias antes de fechar. O token FRIEND caiu ~98%. O $NORMIE despencou ~99% num exploit. E em abr/2025, o próprio X oficial da Base tokenizou um post via Zora ("Base is for everyone"), que subiu +962% e desabou ~90% em minutos, lido por muitos como pump-and-dump. Atenção barata vem com qualidade duvidosa embutida.
4. A virada do SocialFi expôs o improviso. O pilar social do Base App, vendido com pompa em jul/2025, foi desmontado em cerca de seis meses: o feed "Talk" do Farcaster saiu, o programa de Creator Rewards (que pagou US$ 450 mil+) foi encerrado, e o app pivotou pra "trading-first". Mostra que nem a Base sabia, de antemão, qual jogada ia colar.
A leitura deste paper, distribuição mais marca como motor de crescimento, é corroborada por research institucional e pela imprensa que cobriu a Base sem release pago.
Fontes: a16z (State of Crypto 2024), Messari (State of the Superchain H1 2025), Fortune, CoinDesk (Most Influential 2025), The Block, DWF Labs. Dados de TVL/atividade cruzados com DefiLlama, L2BEAT e growthepie.
A Base não é replicável inteira: poucos têm uma Coinbase de canal. Mas as jogadas de marca por trás do crescimento servem pra qualquer empresa que já tenha (ou queira ativar) uma audiência.
Ter o público não converte sozinho. Se você já tem uma base (clientes, lista, seguidores), o trabalho de marca é dar a ela um motivo concreto pra dar o próximo passo.
O Onchain Summer trocou "estamos no ar" por um festival com data, marcas e coisas pra fazer. Experiência converte; conceito não.
Quem usa traz volume; quem constrói traz produto, e produto traz mais cliente. Investir em quem cria em cima de você multiplica os canais de venda.
Basenames, bordão, identidade. Quando a pessoa exibe a sua marca de graça no próprio perfil, ela vira distribuição. Marca que vira linguagem é o teto.
Empresa não gera lealdade emocional; pessoa gera. Um fundador presente, que escreve o próprio texto, dá alma de comunidade a uma operação grande.
Em vez de apostar numa febre, vire a infraestrutura padrão de qualquer febre. Assim você ganha relevância em todo ciclo, sem depender de um acerto só.
O SocialFi do Base App não colou e foi revertido em meses, com o CEO admitindo em público. Errar rápido e honesto preserva mais marca que insistir no errado.
Todo número deste paper vem de fonte pública, datada de junho de 2026. Quando uma metodologia diverge (caso do TVL atual, faixa de ~US$ 10,7 a 12,8 bilhões conforme a fonte), citamos a faixa, não o ponto. Tweets reproduzidos verbatim em texto; engajamento (likes/RTs) não foi confirmado e, por isso, não é reportado. O token de rede está em "exploração" anunciada (set/2025), não lançado: tratamos como vácuo, não como fato consumado.
Este documento é um estudo editorial de marketing produzido pela Kaleidos. Não constitui recomendação de investimento, aconselhamento financeiro ou endosso à Base, à Coinbase ou a qualquer token. Marcas, logos e tweets citados pertencem a seus respectivos donos e são reproduzidos sob uso editorial. Dados sujeitos a variação de mercado. A Base não tinha token de rede lançado na data desta publicação.