Kaleidos · Agência Cripto-Nativa Vol. 04 — Estudo de Caso
O objeto de estudo

BASE.

A L2 que a Coinbase usou pra transformar 110 milhões de clientes em usuários onchain.

Lente: marketing & growth
Sujeito: Base · L2 da Coinbase (OP Stack)
#2 L2 por TVL · ~110M de distribuição · sem token (ainda)
KaleidosIntro
Kaleidos Paper · Vol. 04

A blockchain que cresceu
com público já comprado.

A Hyperliquid cresceu sem marketing e sem dinheiro. A Base fez o oposto: nasceu dentro da maior corretora dos Estados Unidos, com cento e dez milhões de clientes verificados do outro lado da porta. Onde a maioria dos projetos cripto começa gritando pra um deserto, a Base começou com a plateia já sentada.

Esse é o caso que este paper destrincha. Porque "ter distribuição" parece fácil, e quase nunca é. A Coinbase tinha a audiência, mas precisou inventar um motivo pra ela atravessar a ponte, um produto pra ela usar do outro lado, e uma cultura pra ela ficar. A Base é o estudo de como uma empresa de capital aberto usou marca, campanha e narrativa pra converter clientes de uma corretora em cidadãos de uma rede, e o que deu certo, o que colapsou no caminho, e o que sobrou de pé.

A lente é marketing. O sujeito é a Base. Não é teoria: é a sequência real de jogadas, em ordem causal, com a prova pública de cada uma, e com as rachaduras expostas no mesmo nível de honestidade dos acertos.

Vamos olhar como o Onchain Summer, o Jesse Pollak, os Basenames, o Base App e a ponte da Coinbase formaram uma máquina de aquisição, por que ela surfou uma fila de ondas de hype que subiram e despencaram, e o que isso ensina sobre construir marca quando a distribuição já é sua.

Tempo de leitura
14 a 20 minutos
Formato
Breakdown · estudo de projeto
Dados
Fontes públicas · jun/2026
Gabriel Madureira
Gabriel Madureira
Fundador · Kaleidos — agência cripto-nativa
© Kaleidos · Vol. 0402
KaleidosOverview
Overview · os números-choque

Seis números que explicam
uma vantagem injusta.

Antes do teardown, o retrato em seis dados. Cada um é desenvolvido nas jogadas a seguir, com a prova.

~110 mi
A distribuição que ninguém mais tem. A Coinbase reportou cerca de 108 a 110 milhões de usuários verificados (fim de 2024). A Base nasceu com essa audiência do outro lado da ponte, antes de gastar um dólar em mídia.
~US$5,58 bi
Pico de TVL (out/2025). A Base saiu de ~US$ 50 milhões no lançamento (ago/2023) pro topo de ~US$ 5,58 bilhões em dois anos, virando a #2 L2 do Ethereum. Em out/2024 chegou a flipar a Arbitrum no #1.
700 mil
NFTs no Onchain Summer 2023. A campanha de lançamento minerou 700 mil NFTs entre 268 mil carteiras em 23 dias, com Coca-Cola, Atari e OpenSea a bordo. O marketing virou o produto.
~12 mi/dia
Pico de transações diárias (jan/2025). A Base virou a L2 #1 em atividade e, em jun/2024, chegou a superar a própria Ethereum em endereços ativos diários. Em 2024, foram 22 milhões de endereços ativos (a16z).
Zero token
Nenhum token de rede (ainda). Por dois anos a Base disse não ter token. Em set/2025, passou a "explorar" um. Sem TGE até jun/2026, o vácuo virou ao mesmo tempo combustível e tensão com a base.
7,5 mil
Builders no Onchain Summer 2024. O Buildathon reuniu mais de 7.500 builders e 1.250 projetos, com US$ 2 milhões em prêmios e sponsors como Stripe e Shopify. A campanha virou funil de construtor.
87,2% da receita de sequencer da Superchain · sequencer único
No H1 de 2025, a Base gerou 87,2% de toda a receita de sequencer da Superchain Optimism (US$ 42,4 milhões, Messari), pagando uma fração disso de "aluguel". O resto do paper explica, jogada por jogada, como distribuição virou marca, e onde a marca racha.
© Kaleidos · Vol. 0403
KaleidosO que é a Base
Contexto do projeto

Uma rede com dona,
uma marca com missão.

O básico: o que é uma L2. A Ethereum é segura, mas cara e lenta quando lotada. Uma "L2" (camada 2) é uma blockchain que roda em cima da Ethereum, herdando a segurança dela, mas processando transações fora da rede principal pra ficar rápida e barata. A Base é uma L2 construída sobre o OP Stack, o software aberto da Optimism. Em termos de marketing, a L2 é o produto; a Ethereum é a infraestrutura emprestada.

O que a Base é. Lançada em agosto de 2023, é a L2 incubada pela Coinbase, a maior corretora de capital aberto dos EUA (NASDAQ: COIN). O diferencial não é técnico, é de origem: ela nasce acoplada a uma empresa com cerca de 110 milhões de usuários verificados e um app que já está no bolso de milhões de pessoas. A Base é o caminho que a Coinbase abriu pra levar esse público "onchain".

O mercado em que ela joga. Do lado das L2s, a briga é com a Arbitrum e a própria Optimism, que juntas com a Base processam cerca de 90% das transações de camada 2. A Base entrou tarde nessa corrida e, mesmo assim, em pouco mais de um ano virou #1 ou #2 em quase toda métrica. A arma não foi tecnologia superior. Foi distribuição e marca.

Onde ela está hoje. #2 L2 por TVL (faixa de ~US$ 10,7 a 12,8 bilhões conforme a fonte, jun/2026), atrás da Arbitrum. Rebrand pra "Basechain" em 2025, upgrade Azul em mainnet (mai/2026) rumo a mais descentralização. E ainda sem token de rede lançado.

Base
L2 · OP Stack
incubada pela Coinbase
A Hyperliquid teve que criar a própria audiência do zero. A Base começou com a audiência pronta e o desafio inverso: dar a 110 milhões de pessoas um motivo pra cruzar a ponte. Distribuição não é vitória, é a linha de partida. O marketing é o que faz a multidão atravessar.
A lente de marketing · Kaleidos
© Kaleidos · Vol. 0404
KaleidosA origem
A decisão fundadora

Distribuição é a tese.

Jesse Pollak
@jessepollak
"the Base builder"
Jesse Pollak lidera a Base e virou o rosto da marca. Fonte: x.com/jessepollak (2026).
~110M
usuários verificados da Coinbase (fim 2024)
2023
ano de lançamento da mainnet (ago)

A Coinbase. Fundada por Brian Armstrong, a Coinbase é a corretora cripto de capital aberto mais conhecida dos EUA e, por anos, a porta de entrada padrão de quem comprava sua primeira cripto. O problema estratégico: a Coinbase ganhava taxa quando você comprava e vendia, mas perdia você no momento em que você queria fazer qualquer coisa "onchain", em DeFi, NFT, apps. A Base resolve isso: em vez de mandar o usuário pra fora, ela constrói o "fora" dentro de casa.

Jesse Pollak. Engenheiro que entrou na Coinbase em 2018 e passou a liderar a Base, Pollak fez algo raro num projeto de empresa grande: virou fundador-personagem. Escreve o próprio X ("não é um freelancer aleatório do Fiverr"), encarnou o bordão "stay based" e construiu uma identidade de builder que dá rosto humano a uma iniciativa corporativa. A CoinDesk o colocou entre os mais influentes de 2025.

A decisão que definiu tudo. A aposta não foi em ser a L2 mais rápida ou mais barata, várias eram. Foi em ser a L2 com a melhor distribuição. Toda a estratégia de marca, do Onchain Summer ao Base App, parte de uma premissa só: já temos o público; precisamos de marca, cultura e produto bons o bastante pra ele atravessar e ficar.

"all my X posts are my own, not some random freelancer from Fiverr."
Jesse Pollak · sobre escrever o próprio conteúdo (Cointelegraph)
J
Jesse Pollak
@jessepollak · jan 2025
𝕏
to based builders: THIS IS THE BEGINNING. time to buckle down, keep building, stay based.
o fundador como engine de conteúdo · texto verbatim, jan/2025
© Kaleidos · Vol. 0405
KaleidosJogada 1
1
Jogada 1 · o lançamento como festival

Onchain Summer:
o lançamento virou festival.

Em vez de um anúncio, uma temporada de eventos onchain com marcas globais.
Onchain Summer
ago/2023 · 23 dias
Coca-Cola · Atari · OpenSea
O que eles fizeram

A Base não lançou com um post de "estamos no ar". Lançou com o Onchain Summer: uma temporada de 23 dias de drops, mints e experiências onchain, curada como um festival cultural. Trouxe marcas mainstream pra dentro, Coca-Cola, Atari, OpenSea, Zora, FWB, mais de 50 empresas e artistas, cada uma com um motivo concreto pro usuário clicar, conectar a carteira e fazer a primeira transação na rede.

Por que funcionou

Lançamento de blockchain normalmente é abstrato: "rede rápida e barata", ninguém sente. A Base trocou o conceito por um evento com data, marcas conhecidas e coisas pra fazer. O usuário da Coinbase não precisava entender de L2; precisava só querer o NFT da Coca-Cola. Cada marca emprestou sua audiência e sua credibilidade, e a Base coletou a primeira transação de centenas de milhares de carteiras.

700k
NFTs minerados em 23 dias
268k
carteiras únicas participantes
$242M
bridgeado nas 2 primeiras semanas
~$500k
arrecadado só pelo drop da Coca-Cola

A evidência. O Onchain Summer 2023 produziu 700 mil NFTs minerados entre 268 mil carteiras, com pico de 145 mil usuários e 1,4 milhão de transações em um único dia. Foram US$ 242 milhões bridgeados nas duas primeiras semanas. O drop "Masterpiece" da Coca-Cola sozinho arrecadou cerca de US$ 500 mil. A campanha não foi um custo de aquisição: foi um evento que pagou parte da própria conta e entregou a base inicial de usuários da rede.

Lição → transforme o lançamento num evento com data, marcas e coisas pra fazer; conceito não converte, experiência sim.
© Kaleidos · Vol. 0406
KaleidosJogada 2
2
Jogada 2 · a campanha vira funil de construtor

De festival a Buildathon:
recrutar quem constrói.

O Onchain Summer evoluiu de mints pra um funil de aquisição de developers.

O que eles fizeram. Na segunda edição (2024), a Base transformou a campanha cultural num funil de construtor. O Onchain Summer II trouxe um Buildathon com US$ 2 milhões (mais de 600 ETH) em prêmios, grants e créditos de gás, sponsors de peso como Stripe, Shopify, Zora e Farcaster, e oito trilhas de competição. Em 2025, a campanha virou um modelo retroativo de prêmios (Onchain Summer Awards, US$ 250 mil) que premia apps que já geraram engajamento real. Em paralelo, os programas Base Batches e Base Around The World levaram o recrutamento de builders pra seis regiões do mundo.

7.500+
builders no Buildathon 2024
1.250+
projetos inscritos
$2M
em prêmios e grants (600+ ETH)
24M+
assets minerados na edição
Por que funcionou

Usuário traz volume; builder traz produto, e produto traz mais usuário. Ao gastar em hackathon em vez de só em anúncio, a Base comprou o ativo que se compõe: cada app novo construído na rede é um motivo novo pra alguém usar a rede. O prêmio em dinheiro é o gancho; o verdadeiro retorno é o ecossistema que passa a vender a Base por conta própria.

A evidência

O Buildathon de 2024 foi anunciado como "o maior hackathon onchain da história": 7.500+ builders e 1.250+ projetos. A edição inteira somou mais de 2 milhões de carteiras e 24 milhões de assets minerados. Recrutar construtor virou tão estratégico quanto recrutar usuário.

Crescimento de builders
Onchain Summer 2023 → 2024 (escala log)
Fonte: Base blog · research §C
© Kaleidos · Vol. 0407
KaleidosJogada 3
3
Jogada 3 · a vantagem injusta

A ponte da Coinbase
é o canal de aquisição.

Distribuição embutida: 110 milhões de usuários a um clique da rede.
O que a Base fez

Integrou a rede no produto que a audiência já usava. Comprar cripto na Coinbase e mandar pra Base virou questão de poucos toques, sem ponte manual complicada, sem buscar a rede certa. O onramp, a carteira e o "comece na Base" passaram a viver dentro do app da Coinbase. A jogada de marketing mais subestimada da Base não é uma campanha, é a ausência de atrito entre ter o público e ativar o público.

Por que funcionou

Em cripto, o gargalo nunca foi interesse, foi fricção. A maioria dos projetos morre no "como eu coloco dinheiro nisso?". A Base herdou o canal que resolve exatamente esse passo, o canal regulado pelo qual milhões de americanos já tinham passado. Distribuição embutida transforma o custo de aquisição em quase zero: você não anuncia pra estranhos, você abre uma porta pra quem já está na sua casa.

A vantagem de distribuição
Usuários, em milhões (escala log)
Fonte: CoinLaw / a16z / Base · research §B
Quase todo projeto cripto gasta a maior parte do orçamento tentando resolver o primeiro passo: tirar a pessoa do mundo normal e colocar dinheiro na rede. A Base não tinha esse problema. Tinha o passo seguinte: dar à pessoa que já estava lá um motivo pra atravessar. Distribuição não vence sozinha, mas muda completamente qual jogo você está jogando.
A lente de marketing · Kaleidos

A evidência. A combinação de canal pronto e campanha agressiva deu resultado raro em velocidade: a Base flipou a própria Ethereum em endereços ativos diários em junho de 2024, atingiu pico de ~12 milhões de transações por dia em janeiro de 2025 e somou 22 milhões de endereços ativos em 2024 (a16z, 3ª maior do mundo). Crescimento desse porte, em pouco mais de um ano, não se compra só com anúncio. Compra-se com distribuição mais marca.

© Kaleidos · Vol. 0408
KaleidosJogada 4
4
Jogada 4 · identidade onchain

Basenames: o crachá
que vira identidade.

.base.eth transformou endereço de carteira em nome próprio e bandeira de tribo.
jesse.base.eth
Basenames · ago/2024
identidade onchain
O que a Base fez

Lançou os Basenames em agosto de 2024: nomes legíveis no formato seu-nome.base.eth pra substituir endereços de carteira impronunciáveis. Pollak adotou jesse.base.eth publicamente, e a comunidade seguiu. O que parecia um detalhe técnico (resolução de nome) virou um ato de marca: assinar "alguma-coisa.base.eth" é declarar a que rede você pertence.

Por que funcionou

Nome é identidade, e identidade é pertencimento. Quando milhares de pessoas trocam o avatar e o handle por algo.base.eth, cada uma vira um outdoor ambulante da rede. É o mesmo mecanismo de uma marca de roupa cujo logo o cliente paga pra exibir: a Base deu à comunidade um símbolo de tribo e a comunidade o vestiu de graça, espalhando a marca em cada perfil.

70k
nomes nas primeiras 36 horas
400k
registrados em poucos dias
750k+
Basenames registrados (acum.)
-45%
de transações falhas nas 1ªs semanas

A evidência. Foram 70 mil nomes nas primeiras 36 horas, 400 mil em poucos dias e mais de 750 mil registrados desde então. Além do efeito de marca, os Basenames melhoraram a usabilidade da rede (reportou-se queda de 45% em transações falhas nas primeiras semanas). Identidade e função andaram juntas: cada nome é, ao mesmo tempo, uma melhoria de produto e uma peça de marketing que o próprio usuário carrega.

© Kaleidos · Vol. 0409
KaleidosJogada 5
5
Jogada 5 · o fundador como marca

"Stay based":
narrativa de builder.

Pollak deu rosto humano e bordão de tribo a uma iniciativa corporativa.
O que a Base fez

Personificou a marca num fundador. Em vez de comunicar como "Coinbase L2", a Base falou pela boca de Jesse Pollak: posts diários, presença constante, o bordão "stay based" e a estética do construtor que ama o que faz. "Based" virou ao mesmo tempo o nome da rede, um trocadilho com a gíria de internet ("based", autêntico, sem se importar com a opinião alheia) e uma identidade que a comunidade adotou como sua.

Por que funcionou

Empresa não gera lealdade emocional; pessoa gera. Um departamento de marketing soa institucional; um fundador que aparece todo dia, escreve o próprio texto e repete um bordão constrói algo que parece movimento. A Base pegou o calor humano que normalmente só projetos pequenos têm e injetou numa iniciativa de empresa de capital aberto, o melhor dos dois mundos: a distribuição de uma gigante com a alma de uma comunidade.

stay based
bordão · identidade
de tribo
O nome "based" foi um achado de marca: rede, gíria e atitude na mesma palavra. Quando a comunidade adota o seu nome como adjetivo pra elogiar gente ("isso é tão based"), a marca deixou de ser nome de produto e virou parte do vocabulário. Esse é o teto da marca: virar linguagem.
A lente de marketing · Kaleidos

A evidência. A força do personagem se mede pelo reconhecimento de fora: a CoinDesk colocou Pollak na lista de mais influentes de 2025. E pela linguagem de dentro: "based" circula em Crypto Twitter como adjetivo independente da rede. Quando o nome da sua marca vira gíria de elogio, você comprou um espaço mental que nenhum anúncio aluga.

© Kaleidos · Vol. 0410
KaleidosJogada 6
6
Jogada 6 · a cultura como aquisição

Surfar as ondas
de hype da cultura.

friend.tech, memecoins, AI agents: a Base virou o palco onde a cultura cripto acontece.
2023
friend.tech
SocialFi · pico >$50M em depósitos
2024
memecoins
$DEGEN e a onda de tokens culturais
fim 2024
Clanker / AI
3.500+ tokens via bot em ~18 dias
2025
Zora · content coins
posts viram tokens; Base App SocialFi
O que a Base fez

Em vez de empurrar um único caso de uso, a Base se posicionou como o palco onde a próxima onda da cultura cripto aconteceria, e cultivou cada uma. O friend.tech (SocialFi, 2023) estourou na Base e trouxe uma multidão. Depois vieram as memecoins e o $DEGEN, o boom de tokens de AI agents via Clanker, e os "content coins" da Zora. A Base se aliou a Farcaster e Zora, deu trilhos pra cada nova febre e colheu a atenção e o volume de cada ciclo.

Por que funcionou

Atenção em cripto é cíclica: cada temporada tem sua febre. Quem tenta criar a febre sozinho quase sempre erra. A Base fez algo mais esperto, ser a infraestrutura padrão de qualquer febre que surgisse. Não importava qual onda viesse, ela quebrava na Base. Isso manteve a rede no centro da conversa, mês após mês, sem depender de uma aposta única dar certo.

A evidência. O friend.tech sozinho levou os depósitos da Base de quase nada a mais de US$ 50 milhões e 136 mil usuários ativos diários no pico de 2023, alimentando o primeiro salto de TVL da rede. Cada ciclo seguinte renovou a atenção. Mas, como o teste de estresse vai mostrar, essa estratégia tem um custo embutido: quase toda onda que sobe, desce, e às vezes some.

Lição → não aposte numa febre, vire o palco onde toda febre acontece; assim você ganha em qualquer cenário.
© Kaleidos · Vol. 0411
KaleidosJogada 7
7
Jogada 7 · de rede a super app

O Base App: virar
o "everything app".

A Coinbase Wallet vira Base App e tenta fechar o loop: social, pagamento e trade num lugar.

O que a Base fez. Em julho de 2025, no evento "A New Day One", a Coinbase rebatizou a Coinbase Wallet como Base App e a vendeu como um "everything app": rede social (via Farcaster), publicações que viram tokens (via Zora), trade no feed, mini-apps e o Base Pay, pagamento por aproximação em USDC (via Circle). A ideia: empacotar tudo o que a rede oferece num único produto de consumo, do jeito que o WeChat empacotou a vida digital chinesa.

>1M
na waitlist do Base App
$500k+
pagos a criadores (beta)
>40%
dos beta users usaram mini-apps
dez/25
abertura geral ao público
Por que a aposta fazia sentido

Uma rede vale pelo que se faz nela. Empacotar social, pagamento e trade num app de consumo poderia transformar a Base de "infraestrutura pra developer" em "app pra pessoa comum", o passo que de fato levaria os 110 milhões pra dentro. A waitlist de mais de 1 milhão mostrou que o apetite existia.

A evidência (e a ressalva)

O beta pagou mais de US$ 500 mil a criadores e teve adoção alta de mini-apps. Mas, como o próximo capítulo detalha, a aposta SocialFi do Base App foi revertida em poucos meses. A lição honesta: nem toda jogada de marketing vira acerto, e a coragem de pivotar faz parte do jogo.

Base App
social · pay · trade
jul/2025
© Kaleidos · Vol. 0412
KaleidosJogada 8
8
Jogada 8 · marca como missão

"Bring everyone onchain"
como bandeira.

Uma missão grande o bastante pra dar sentido a cada campanha, e atrair quem acredita.
O que a Base fez

Amarrou tudo numa missão única e repetível: trazer o próximo bilhão de pessoas pra onchain. Não é slogan de produto, é causa. Cada campanha (Onchain Summer, Basenames, Base App) deixou de ser uma ação solta e virou um capítulo da mesma história. E a missão tinha lastro de marca: a Base devolve parte da receita do sequencer ao Optimism Collective, posicionando-se como construtora de bem público, não extrativista.

Por que funcionou

Missão grande faz três coisas que anúncio não faz: dá coerência (toda campanha aponta pro mesmo norte), atrai talento (gente boa quer construir algo que importa) e gera tolerância (quando você erra, a causa segura a confiança). "Levar todo mundo onchain" é ambicioso o suficiente pra justificar campanha atrás de campanha sem soar repetitivo, porque cada uma é um passo no mesmo caminho.

Receita do sequencer da Base
US$ M · 87,2% da Superchain no H1/25
Fonte: Fortune / Messari · research §E

A evidência. A missão deu coerência a uma execução de marketing que poderia ter virado uma colcha de campanhas desconexas. E o lado "bem público" tem números: no H1 de 2025, a Base gerou 87,2% da receita de sequencer da Superchain Optimism (US$ 42,4 milhões, Messari), contribuindo de volta ao Collective. A contribuição de volta segue uma fórmula: o maior entre 2,5% da receita do sequencer ou 15% do lucro. Daí a manchete crítica que pegou (The Block): a Base puxa a maior fatia da atividade da Superchain, mas devolve só esses 2,5% de "aluguel". A crítica de que essa contribuição é pequena demais é real, e voltamos a ela no teste de estresse.

© Kaleidos · Vol. 0413
KaleidosO teste de estresse
O teste de estresse · honestidade

Onde a tese racha.

Toda marca forte tem um lado fraco. A Base tem quatro, e nenhum é pequeno.

1. O sequencer é centralizado. A Base roda num "sequencer" único, controlado pela Coinbase, ou seja, uma única empresa ordena as transações da rede. É ponto único de falha, vetor de censura e de extração de valor. Provou-se na prática: a rede teve um halt de 43 minutos logo após o lançamento (set/2023) e outro de 33 minutos em ago/2025, por falha no handoff do sequencer sob congestionamento. A Base atingiu o "Stage 1" da L2BEAT (abr/2025) e prepara o caminho pro Stage 2, mas, até lá, "descentralizada" tem asterisco.

2. O vácuo do token virou ressentimento. Anos de atividade sem airdrop criaram uma base que farmou na expectativa de um prêmio que nunca veio. A "exploração" anunciada em set/2025 não tem data nem alocação: "explorar" não é "lançar". E há um nó estrutural, a Coinbase precisa recompensar usuários sem prejudicar o acionista da COIN. O que pra uns é prudência, pra outros é extração.

B
Brian Armstrong
CEO · Coinbase
Sobre a aposta de rede social do Base App: "didn't quite work" — admitiu publicamente que o pilar SocialFi não funcionou como esperado.
R
Rob Hadick
Dragonfly · investidor
"Base may have been the last meaningful holdout" — a Base teria sido o último grande aposta-tudo no social web3, e ela recuou.

3. A cultura que atrai também queima. A estratégia de surfar toda onda tem um custo: quase toda onda colapsou. O friend.tech foi de US$ 50 milhões em depósitos a US$ 21 de receita em 30 dias antes de fechar. O token FRIEND caiu ~98%. O $NORMIE despencou ~99% num exploit. E em abr/2025, o próprio X oficial da Base tokenizou um post via Zora ("Base is for everyone"), que subiu +962% e desabou ~90% em minutos, lido por muitos como pump-and-dump. Atenção barata vem com qualidade duvidosa embutida.

4. A virada do SocialFi expôs o improviso. O pilar social do Base App, vendido com pompa em jul/2025, foi desmontado em cerca de seis meses: o feed "Talk" do Farcaster saiu, o programa de Creator Rewards (que pagou US$ 450 mil+) foi encerrado, e o app pivotou pra "trading-first". Mostra que nem a Base sabia, de antemão, qual jogada ia colar.

A leitura honesta · o que sobra de pé
01
O hype alugou os usuários (e muito hype colapsou)
02
A infra compôs: Aerodrome, USDC, a chain
03
A distribuição Coinbase segurou a retenção
04
Sequencer único + token vazio = dívida em aberto
© Kaleidos · Vol. 0414
KaleidosOs números que provam
Os números que provam

A tese, em dados.

TVL da Base (US$ bi)
~$50M no lançamento → pico ~$5,58bi (out/25)
Fonte: DefiLlama
Market share entre L2s
por TVL · mid-2026 · Base #2 atrás da Arbitrum
Fonte: DefiLlama / BlockEden
Transações diárias (pico, milhões)
pico de ~12M/dia em jan/2025, #1 L2
Fonte: The Block / a16z
Curvas de hype que colapsaram
queda do pico · o custo de surfar a cultura
Fonte: DLNews / CertiK / Blockworks
A infraestrutura que compôs (US$ bi, escala log)
enquanto o hype subia e descia, infra durável se acumulou
Fonte: DefiLlama / Aerodrome · research §E
© Kaleidos · Vol. 0415
KaleidosO que a pesquisa séria diz
O lastro · não é opinião de agência

O que a pesquisa
séria diz.

A leitura deste paper, distribuição mais marca como motor de crescimento, é corroborada por research institucional e pela imprensa que cobriu a Base sem release pago.

a16zState of Crypto 2024
Coloca a Base entre as redes mais ativas do mundo: 22 milhões de endereços ativos em 2024, a 3ª maior globalmente em atividade.
MessariState of the Superchain
No H1/2025, a Base respondeu por 65,9% do TVL e 87,2% da receita de sequencer de toda a Superchain Optimism (US$ 42,4 milhões).
Fortune"Game changer"
Tratou o Base App como um "super app" capaz de virar fonte de receita relevante: empacotar social, pagamento e trade num produto de consumo de massa.
CoinDeskMost Influential 2025
Incluiu Jesse Pollak na lista dos mais influentes de 2025, validando a aposta de personificar a marca num fundador-personagem.
The Block#1 L2
Documentou a Base flipando a Arbitrum como maior rollup por TVL (out/2024) e o pico de ~12M de transações/dia (jan/2025).
DWF LabsThe Case for Base
Research dedicado: a Base como "open stack for the global economy", com a tese de pagamentos e stablecoins (USDC) como vetor de escala.
A síntese honesta · KaleidosDistribuição rende; só marca retém
A Base prova que distribuição embutida muda o jogo, mas não o vence sozinha. O hype alugou os usuários (e a maior parte colapsou 80–99%); foi a infraestrutura durável (Aerodrome, USDC, a chain) somada à retenção via Coinbase que segurou o crescimento. As rachaduras (sequencer único, token vazio, SocialFi revertido) são a conta que ainda não venceu.

Fontes: a16z (State of Crypto 2024), Messari (State of the Superchain H1 2025), Fortune, CoinDesk (Most Influential 2025), The Block, DWF Labs. Dados de TVL/atividade cruzados com DefiLlama, L2BEAT e growthepie.

© Kaleidos · Vol. 0416
KaleidosO que isso ensina
O que isso ensina

Sete jogadas transferíveis.

A Base não é replicável inteira: poucos têm uma Coinbase de canal. Mas as jogadas de marca por trás do crescimento servem pra qualquer empresa que já tenha (ou queira ativar) uma audiência.

1
Distribuição é a linha de partida, não a chegada.

Ter o público não converte sozinho. Se você já tem uma base (clientes, lista, seguidores), o trabalho de marca é dar a ela um motivo concreto pra dar o próximo passo.

2
Lance com um evento, não com um anúncio.

O Onchain Summer trocou "estamos no ar" por um festival com data, marcas e coisas pra fazer. Experiência converte; conceito não.

3
Recrute construtor, não só cliente.

Quem usa traz volume; quem constrói traz produto, e produto traz mais cliente. Investir em quem cria em cima de você multiplica os canais de venda.

4
Dê à comunidade um símbolo pra vestir.

Basenames, bordão, identidade. Quando a pessoa exibe a sua marca de graça no próprio perfil, ela vira distribuição. Marca que vira linguagem é o teto.

5
Personifique a marca num rosto.

Empresa não gera lealdade emocional; pessoa gera. Um fundador presente, que escreve o próprio texto, dá alma de comunidade a uma operação grande.

6
Seja o palco, não a aposta única.

Em vez de apostar numa febre, vire a infraestrutura padrão de qualquer febre. Assim você ganha relevância em todo ciclo, sem depender de um acerto só.

7
Tenha a coragem de pivotar, e de admitir.

O SocialFi do Base App não colou e foi revertido em meses, com o CEO admitindo em público. Errar rápido e honesto preserva mais marca que insistir no errado.

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