- O Blast levantou US$ 20 milhões com Paradigm e Standard Crypto e abriu depósitos em novembro de 2023, três meses antes de existir uma rede funcional (The Block, 2023).
- A mecânica de lançamento combinou três alavancas: yield nativo como promessa de produto, bridge sem saque como escassez forçada e convites com pontos como loop viral.
- O TVL saiu de zero para US$ 603 milhões em uma semana (CoinDesk, 2023) e atingiu US$ 2,2 bilhões em junho de 2024, um mês antes do TGE (DefiLlama, 2024).
- O airdrop de 26 de junho de 2024 distribuiu 17 bilhões de tokens BLAST e abriu a um valuation de US$ 2,9 bilhões, bem abaixo dos US$ 5 a 10 bilhões que farmers projetavam (Brave New Coin, 2025).
- O pós-TGE foi êxodo: TVL caiu 97% e os usuários ativos diários despencaram de 77 mil para cerca de 3,5 mil (Token Terminal, 2025).
- A lição central: incentivo desenha comportamento. Se o incentivo termina no snapshot, o público também termina.
O setup: pedigree, escassez e uma promessa de yield
Todo lançamento forte em cripto começa com uma resposta convincente para a pergunta "por que confiar". O Blast tinha três respostas prontas.
A primeira era o fundador. Pacman vinha de entregar o Blur, o marketplace que tomou volume do OpenSea usando um sistema de pontos agressivo em 2023. O histórico funcionava como prova social: quem farmou Blur e recebeu airdrop generoso acreditava que a história ia se repetir.
A segunda era o capital. A rodada de US$ 20 milhões liderada pela Paradigm, um dos fundos mais respeitados do setor, com participação da Standard Crypto, dava selo institucional ao projeto (The Block, 2023).
A terceira era a promessa de produto: yield nativo. Diferente de outros L2s, onde o ETH depositado fica parado, o Blast prometia repassar automaticamente o rendimento de staking e de T-bills tokenizados para o saldo do usuário. Era um pitch simples de entender: seu dinheiro rende só por estar aqui.
Com essas três peças, o Blast fez algo que hoje parece óbvio e na época era ousado: abriu depósitos antes de ter rede. A bridge aceitava ETH, mas não devolvia. O saque só seria liberado no mainnet, previsto para fevereiro de 2024. Quem entrava, entrava trancado por três meses.
A mecânica de hype: pontos, convites e trava de capital
O desenho da campanha pré-mainnet merece análise fria, porque foi tecnicamente impecável como máquina de aquisição.
O acesso era por convite. Cada usuário que entrava ganhava códigos para chamar outros, e ganhava pontos sobre a atividade dos convidados. Isso transformou cada depositante em canal de distribuição: o Twitter cripto virou um mural de códigos de convite do Blast em questão de dias.
Os pontos eram a moeda da expectativa. Sem utilidade definida, sem taxa de conversão anunciada, mas com um entendimento implícito herdado do Blur: pontos viram token, e token vira dinheiro. O usuário não estava depositando ETH numa bridge; estava comprando um bilhete de loteria cujo prêmio ele mesmo estimava.
E a trava de saque completava o sistema. Capital que não pode sair não gera pressão vendedora de narrativa. O TVL só podia subir, e cada milestone de TVL virava manchete, e cada manchete trazia mais depósito. Em uma semana, US$ 603 milhões (CoinDesk, 2023). Antes do mainnet, mais de US$ 2 bilhões acumulados.
O detalhe revelador: a crítica mais dura veio de dentro. A própria Paradigm afirmou publicamente que o lançamento cruzou linhas, por abrir a bridge antes do L2 existir e por travar saques por três meses, dizendo que isso criava um precedente ruim para o setor (Decrypt, 2023). Pacman rebateu as comparações com esquema Ponzi e seguiu com o plano (The Block, 2023). Quando a sua investidora líder critica a mecânica em público e o TVL continua subindo, o mercado está dizendo algo sobre si mesmo: no ciclo de 2023, o FOMO batia a diligência.
O mainnet e a corrida ao snapshot
O mainnet chegou no fim de fevereiro de 2024 e liberou os saques. Aqui está o primeiro dado que qualquer estrategista deveria estudar: o capital não saiu. Ao contrário, o TVL continuou crescendo até o pico de US$ 2,2 bilhões em junho de 2024 (DefiLlama, 2024).
Por quê? Porque o airdrop ainda não tinha acontecido. Sacar antes do snapshot significava abandonar meses de pontos acumulados. A trava contratual da bridge foi substituída por uma trava psicológica igualmente eficaz: custo irrecuperável.
Nesse período o Blast também rodou o Big Bang, competição de dapps para povoar o ecossistema, e distribuiu Gold, uma segunda camada de pontos destinada a desenvolvedores. No papel, era construção de ecossistema. Na prática, boa parte dos apps nasceu com o mesmo desenho de incentivo da rede: atrair volume para maximizar alocação de airdrop. O ecossistema inteiro estava apontado para a mesma data.
Os sinais de fragilidade já apareciam antes do TGE. Em fevereiro de 2024, o RiskOnBlast, um projeto de gambling do ecossistema, deu rug pull e sumiu com cerca de 500 ETH, na época US$ 1,3 milhão (Brave New Coin, 2025). Em março, o jogo Super Sushi Samurai sofreu exploit de US$ 4,6 milhões (Brave New Coin, 2025). Ecossistemas montados às pressas para capturar um snapshot atraem builders com o mesmo horizonte de tempo dos farmers.
O TGE: quando a expectativa cobra a conta
Em 26 de junho de 2024, o Blast distribuiu 17 bilhões de tokens BLAST na Fase 1 do airdrop (CoinDCX, 2024). E o evento que deveria coroar a campanha virou o começo do fim.
O problema não foi operacional. Foi aritmético. Durante meses, farmers fizeram contas com valuations de US$ 5 a 10 bilhões, extrapolando o histórico do Blur e o tamanho do TVL. O token abriu a cerca de US$ 2,9 bilhões de valuation totalmente diluído (Brave New Coin, 2025). Para quem travou seis dígitos por seis meses, a alocação recebida representava um retorno percentual pequeno sobre o capital imobilizado, às vezes menor que o rendimento que esse capital teria em DeFi comum.
A reação foi a que qualquer modelo de incentivos previa: venda e saque. Quem recebeu o token vendeu, porque o token era o pagamento pelo trabalho de farmar. Quem tinha capital na rede sacou, porque o motivo de estar lá tinha deixado de existir. Não houve um segundo ato planejado: nenhum motivo novo para ficar que não fosse a Fase 2 de pontos, uma repetição enfraquecida do mesmo truque.
O colapso em números
A curva pós-TGE é um dos gráficos mais didáticos da história recente dos L2s:
- TVL: do pico de US$ 2,2 bilhões em junho de 2024 para cerca de US$ 65 milhões, queda de 97% (DefiLlama via The Defiant, 2025).
- Usuários ativos diários: de 77 mil no pico pós-airdrop para cerca de 3,5 mil (Token Terminal, 2025).
- Token BLAST: queda de aproximadamente 91% desde a máxima histórica, negociado a cerca de US$ 250 milhões de FDV (Brave New Coin, 2025).
Repare no contraste: o marketing de aquisição do Blast foi possivelmente o mais eficiente do ciclo, levando um produto sem rede a US$ 2 bilhões de captação. E a retenção foi de aproximadamente 3% do capital. O mesmo desenho que maximizou a entrada garantiu a saída.
Lições
A Kaleidos extrai cinco lições deste teardown, aplicáveis a qualquer projeto que esteja planejando pontos, airdrop ou TGE.
1. Incentivo desenha o público, e o público do Blast era o snapshot. Quando a recompensa dominante é um evento único de distribuição, você recruta pessoas otimizando para esse evento. O comportamento pós-evento já está escrito antes da campanha começar. Se o plano de retenção é "vamos lançar a Fase 2 de pontos", não existe plano de retenção.
2. TVL pré-token é métrica de campanha, não de tração. Os US$ 2,2 bilhões do Blast mediam a eficiência do funil de farming, não a demanda pelo produto. Projetos que leem TVL inflado por incentivo como product-market fit dimensionam equipe, tesouraria e roadmap sobre uma base que vai evaporar. O dado honesto é o que sobra 90 dias depois do TGE.
3. Expectativa é um passivo no balanço do marketing. O Blast nunca prometeu formalmente um valuation, mas toda a comunicação alimentou a extrapolação do caso Blur. Quando o mercado precificou o token abaixo da fantasia coletiva, a diferença virou frustração pública. Gerenciar expectativa para baixo antes do TGE é desconfortável e necessário; a alternativa é transformar o dia mais importante do projeto em decepção coletiva.
4. Produto precisa de um motivo de permanência que sobreviva ao incentivo. O yield nativo era um diferencial real, mas rendimento de staking está disponível em qualquer lugar do DeFi sem trava e sem risco de execução de um L2 novo. A pergunta de sobrevivência é: o que este produto oferece que o usuário não consegue igual ou melhor em outro lugar, depois que os pontos acabam? Se a resposta demora, o TGE deveria esperar.
5. Crítica de insider é sinal antecipado, não ruído. Quando a Paradigm, investidora líder, disse em público que o lançamento cruzou linhas (Decrypt, 2023), o mercado tratou como drama de bastidor. Era diagnóstico. Times de marketing tendem a filtrar críticas durante a euforia porque os números sobem apesar delas. Os números do Blast subiram por sete meses depois do alerta, e o desfecho confirmou o alerta, não a euforia.
O que a Kaleidos faria diferente
Um lançamento com o pedigree e o capital do Blast tinha condições de construir algo duradouro. O redesenho passa por três frentes: recompensar comportamento recorrente em vez de depósito parado, com pontos que decaem sem uso real; escalonar a distribuição do token em função de retenção pós-TGE, não de volume pré-snapshot; e comunicar faixas realistas de alocação antes do evento, trocando o pico de FOMO por confiança que sobrevive à listagem.
Se o seu projeto está desenhando programa de pontos, planejando TGE ou tentando entender por que o TVL não fica depois do incentivo, esse é exatamente o tipo de problema que a Kaleidos resolve. Somos uma agência especializada em marketing para cripto e web3, e trabalhamos lançamento como sistema completo: aquisição, expectativa, distribuição e o dia seguinte. Fale com a Kaleidos e vamos desenhar um lançamento que não termina no snapshot.