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Um estudo denso por quinzena, direto no seu email.
Os bastidores de por que tokens e projetos crescem. Sem ruido, sem spam.
No web2, o go-to-market é organizado em torno de um único stakeholder: o cliente que paga. Todo o funil (do anúncio ao onboarding, da ativação à expansão) existe pra mover essa pessoa por uma jornada. É elegante porque é focado. Você sabe pra quem está falando o tempo inteiro.
Em web3 isso desmorona. A tese canônica da a16z crypto ("Go-to-Market in Web3: New Mindsets, Tactics, Metrics") reorganiza o problema em quatro stakeholders que o projeto precisa servir ao mesmo tempo:
- Usuários — quem usa o protocolo/app pra resolver um problema.
- Desenvolvedores — quem constrói em cima do seu produto (integrações, apps derivados, ferramentas).
- Investidores/holders — quem detém o token e tem skin no jogo econômico.
- Parceiros — outros protocolos, exchanges, guilds, market makers que amplificam distribuição e liquidez.
O detalhe que quebra o funil de SaaS é que esses quatro públicos frequentemente querem coisas opostas. O holder quer preço subindo. O usuário quer taxa baixa e incentivo generoso, que muitas vezes vem de emitir mais token e pressionar o preço pra baixo. O desenvolvedor quer estabilidade e documentação, não hype. O parceiro quer alinhamento de longo prazo, não um pump de 48 horas. Um funil linear não consegue otimizar quatro objetivos que se contradizem. Ele escolhe um, geralmente o mais fácil de medir (seguidor, membro de Discord), e chama isso de tração.
Foi por isso que, como a própria a16z observa, muitas empresas web3 descobriram que papéis de comunidade importam mais do que papéis de vendas e marketing. Não é modismo. É a consequência direta de ter que costurar quatro interesses em vez de empurrar um.
O fundador vira jardineiro, não planejador
A segunda mudança de mindset é sobre quem controla o quê. No web2, o fundador é um planejador top-down: ele define o produto, o funil, a mensagem, e executa. Em web3, a a16z usa uma metáfora que a Kaleidos adota em briefing de cliente: o fundador vira jardineiro.
Um jardineiro não manda a planta crescer. Ele cria as condições (solo, luz, água) e deixa o ecossistema florescer. Num projeto cripto, isso significa que o fundador arquiteta os incentivos, a narrativa e as regras do jogo, mas o resultado (que apps vão ser construídos, que memes vão pegar, que comunidade vai se formar) emerge de baixo pra cima. Você não dita. Você cultiva.
Disso sai a inversão mais importante de todas. No web2, o mantra é "come for the tools, stay for the network": você entra pela ferramenta, fica pela rede. Em web3, a a16z reformula pra "come for the purpose, stay for the community": você entra pelo propósito, fica pela comunidade. O produto ainda importa, mas ele não precisa vir primeiro. Dois elementos o antecedem:
- Propósito — o problema que só o seu projeto resolve, articulado de forma que faça alguém se importar antes de existir um produto pronto.
- Community ownership — a linha entre dono, acionista e usuário borra. Quem usa também é quem detém, e isso muda a natureza da relação de "cliente" pra "co-proprietário".
Para um marketeiro vindo de SaaS, isso é contraintuitivo ao ponto de parecer errado. Mas é exatamente aqui que a maioria dos GTMs cripto trava: eles constroem o produto, tentam vender, e só depois percebem que nunca deram às pessoas um motivo pra pertencer.
A GTM Matrix: qual estratégia pra qual projeto
Reconhecer que existem quatro stakeholders não te diz o que fazer. Para isso a a16z propõe uma matriz 2×2 que a Kaleidos usa como primeiro filtro em qualquer diagnóstico. Ela cruza dois eixos:
- Estrutura: centralizado ↔ descentralizado.
- Incentivo: sem token ↔ com token.
Os quatro quadrantes exigem GTMs radicalmente diferentes:
- Centralizado + sem token → GTM é basicamente SaaS clássico (product-led ou sales-led). É o caso da Alchemy (infra web3 que vende como uma empresa de software B2B) e, em parte, de marketplaces como a OpenSea, que mesmo com royalties on-chain roda um go-to-market de produto centralizado. Aqui, ironicamente, importar o funil de SaaS é a decisão certa.
- Descentralizado + com token → DeFi DAOs, social DAOs, game DAOs, L1s e L2s. É aqui que os quatro stakeholders entram em cena com força total e o funil de SaaS quebra. O GTM é token + comunidade + propósito, medido on-chain.
A lição prática: antes de desenhar qualquer campanha, descubra em que quadrante o projeto está. Metade dos erros de GTM cripto vêm de tratar um projeto descentralizado-com-token como se fosse um SaaS centralizado (e vice-versa: forçar comunidade e airdrop num produto de infra que deveria só vender).
O token não é só finanças, é a ferramenta de GTM
O que mais distingue o quadrante descentralizado é que o token resolve um problema que dinheiro de marketing não resolve: o cold-start. Em vez de gastar em anúncio pra atrair os primeiros usuários e a primeira liquidez, o projeto distribui token e deixa o incentivo puxar a tração.
O caso canônico é o Compound. Quando o protocolo começou a distribuir o token COMP via liquidity mining em junho de 2020, o TVL saltou de cerca de US$ 100 milhões para aproximadamente US$ 600 milhões e disparou o fenômeno que ficou conhecido como "DeFi Summer". Nenhuma campanha paga de SaaS entrega um salto de 6x no ativo central em semanas. O token entrega, porque ele não é anúncio: é participação.
Isso significa que tokenomics é decisão de marketing. Vesting, utility, sell/buy pressure e a mecânica de airdrop são alavancas de go-to-market tanto quanto o calendário de conteúdo. Tratar o token como assunto exclusivo do time financeiro é o mesmo erro de tratar preço como assunto exclusivo do time de vendas em SaaS: você entrega a alavanca mais poderosa do GTM pra quem não pensa em aquisição.
As métricas mudam: engajamento não é adoção
O corolário de ter quatro stakeholders é que as métricas de sucesso também mudam. E é aqui que mora o erro mais caro. O erro-mãe do GTM cripto, na análise de quem estuda os fracassos do setor, é confundir engajamento com adoção. Discord lotado de gente esperando airdrop não é base leal. Retweet não é product-market fit. Dez mil pessoas num grupo de Telegram não é retenção.
A a16z propõe métricas reais por categoria, e vale ter isso colado na parede antes de reportar qualquer resultado:
| Categoria | Vaidade (não use como norte) | Métrica real |
|---|
| DeFi DAO | TVL sozinho | holders únicos, atividade de dev, número de integrações |
| Social/Culture DAO | membros no Discord | ativação, retenção, participação em governança, contribuidores pagos |
| Game DAO | downloads | qualidade do jogo, robustez econômica, parcerias de guild |
| L1/L2 & protocolos | TVL sozinho | proliferação de apps no ecossistema, forks (sinal de que vale replicar) |
A regra que resume tudo, na formulação mais dura que o setor produziu: se o seu projeto desaparece no momento em que os incentivos param, você nunca teve uma comunidade. Teve um hype train. Um hype train enche as métricas de vaidade e esvazia no dia da distribuição. Uma comunidade real se forma em volta de um produto que resolve um problema, e é ela que sustenta o projeto quando o incentivo seca.
Por isso o norte do GTM cripto migrou de "seguidores" pra dado on-chain: wallet connections, swaps, participação em liquidez, holders únicos, integrações. On-chain é o Google Analytics do funil web3, com a vantagem de ser praticamente impossível de fraudar com bot de vaidade.
Framework: os 4 filtros antes de qualquer campanha
Reunindo tudo, aqui está o checklist que a Kaleidos roda antes de propor um go-to-market cripto. São quatro perguntas, uma por stakeholder, que forçam o projeto a sair do funil de SaaS:
- Usuário — qual é o propósito, e ele existe antes do produto? Se você não consegue articular o problema que só o seu projeto resolve numa frase que faça alguém se importar sem ver o produto, você tem um problema de posicionamento antes de ter um de marketing.
- Desenvolvedor — o que faz um terceiro construir em cima de você? Grants, documentação, bug bounties, integrações. A métrica aqui é número e tipo de integrações, não seguidor. Em L1/L2, o produto cresce quando outros constroem nele.
- Investidor/holder — o token está desenhado pra alinhar ou pra farmar? Vesting, utility real, gestão de sell/buy pressure. Se a única razão pra segurar o token é esperar o próximo pump, você desenhou um mercenário, não um holder.
- Parceiro — quem amplifica sua distribuição, e o alinhamento é de longo prazo? Exchanges, market makers, KOLs tratados como parceiros de distribuição (não slots de anúncio), guilds. O critério é resultado on-chain mensurável, não alcance declarado.
Se as quatro perguntas têm resposta, o projeto tem um GTM web3 de verdade. Se só a primeira tem, ele tem um funil de SaaS com roupa de cripto, e vai quebrar na retenção.
Vale um alerta final que a a16z faz sobre montar o time: business development em cripto não é vendas web2. É partnership, ecossistema e integração. Não force uma contratação regional full-time de GTM antes de ver tração real numa região; muitas vezes um community manager júnior num mercado emergente já dá mais visibilidade do que um head de vendas caro importado do SaaS.
O que a Kaleidos retém disso
GTM em web3 não é uma versão mais barulhenta do GTM de SaaS. É um jogo estruturalmente diferente porque tem quatro donos ao mesmo tempo, e o token é uma alavanca de aquisição que o SaaS simplesmente não possui. O fundador que entende isso para de dar ordens e começa a cultivar condições. O projeto que entende isso para de medir seguidor e começa a medir carteira.
O primeiro passo prático nunca é escolher canal. É descobrir em que quadrante da GTM Matrix o projeto vive e articular o propósito antes do produto. Depois disso, cada stakeholder ganha sua própria mecânica, e as quatro se costuram numa estratégia única. É isso que a Kaleidos monta.
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Fontes: