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Métricas de marketing cripto: o que medir de verdade (valor vs vaidade)

Quase todo projeto cripto reporta os números errados. Não por má-fé, por hábito. TVL bombando, novos usuários explodindo, volume na lua, seguidores subindo. Tudo isso é fácil de medir, fácil de tuitar, fácil de colocar no deck pro investido

Resumo

TVL, DAU e volume medem entrada, não permanência, e por isso enganam. A Friend.tech cobrou perto de US$ 2 milhões de fees num dia em 2023 e US$ 71 treze meses depois, no dia do encerramento. O que informa de verdade: retenção por cohort, REV, capital orgânico, concentração de holders e CAC contra valor retido.

Gabriel MadureiraGabriel Madureira

Métricas de marketing cripto: o que medir de verdade (valor vs vaidade)

Em setembro de 2023, a Friend.tech cobrou perto de US$ 2 milhões de fees em um único dia. Treze meses depois, no dia em que o time renunciou aos contratos, o app cobrou US$ 71. No mesmo dia. Não houve hack, não houve rug, não houve crash de mercado. A dashboard dizia "estamos crescendo" enquanto o produto morria por baixo. Esse é o problema das métricas de marketing cripto: as mais bonitas são as que menos te informam.

Quase todo projeto cripto reporta os números errados. Não por má-fé, por hábito. TVL bombando, novos usuários explodindo, volume na lua, seguidores subindo. Tudo isso é fácil de medir, fácil de tuitar, fácil de colocar no deck pro investidor. E quase nada disso te diz se o projeto vai estar vivo em seis meses. Esse teardown separa as métricas que te consolam das que te informam, usando três colapsos que o próprio mercado já documentou.

TVL bruto, DAU e volume: três métricas de fluxo que mentem bem

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Os bastidores de por que tokens e projetos crescem. Sem ruído, sem spam.

Antes de qualquer coisa, uma definição que precisa vir cedo: REV (Real Economic Value) é a receita real que o protocolo gera com taxas pagas por uso genuíno, descontando os incentivos que ele mesmo bombeia pra inflar a atividade. É o número que sobra quando você tira o subsídio da conta. Guarde isso, porque é ele que separa um protocolo que ganha dinheiro de um que está comprando a própria fila.

As três métricas de fluxo mais reportadas (TVL, DAU e volume) compartilham o mesmo defeito: medem entrada, não permanência. Elas sobem rápido quando a aquisição está cara e quente, e continuam parecendo saudáveis por meses enquanto a retenção apodrece embaixo.

TVL bruto. Total Value Locked é o número-totem do DeFi, e também o mais fácil de mascarar. O caso mais escancarado é o de Ian Macalinao, o dev por trás do protocolo Saber na Solana. Ele operou 11 identidades falsas construindo protocolos que depositavam valor uns nos outros, inflando artificialmente o TVL da Solana. A conta: dos cerca de US$ 10,5 bilhões de TVL que a Solana exibia no auge, aproximadamente US$ 7,5 bilhões eram o mesmo dinheiro contado várias vezes, empilhado entre protocolos que eram, na prática, a mesma pessoa. Quando a fraude veio à tona, o TVL real da rede caiu de cerca de US$ 15 bilhões para US$ 12 bilhões: cerca de US$ 3 bilhões eram fantasma. Não existiam. Eram o mesmo capital reciclado pra encher uma dashboard.

TVL bruto soma depósitos. Não pergunta de onde vem o dinheiro, se é o mesmo capital reaparecendo em loop, nem se ele fica quando o incentivo seca. É por isso que o REV existe: ele desconta o subsídio e mede o que sobra de receita real. Solana superou Ethereum em REV em outubro de 2024 não porque tinha o maior TVL nominal, mas porque o valor que circulava lá estava de fato pagando taxas. Um número diz quanto entrou. O outro diz quanto rendeu.

DAU (usuários ativos diários). O contador de cabeças. O problema é que cabeça que entra hoje e some amanhã também conta como DAU. Friend.tech foi de zero a maior protocolo da rede Base em semanas, empurrou o DAU da própria Base acima de 136 mil usuários e gerou perto de US$ 90 milhões em fees na vida toda. Pouco mais de um ano depois, estava com usuários ativos diários na casa de um dígito. O DAU de pico não mentiu sobre quantos entraram. Mentiu por omissão sobre quantos voltaram: quase nenhum. A métrica que teria denunciado isso desde a primeira semana, o gráfico de cohort de retenção, quase ninguém olhou no calor do hype.

Volume. O mais teatral dos três. Volume de negociação é trivial de fabricar com wash trading, e mesmo o volume honesto despenca antes da dashboard admitir. Na própria Friend.tech, a queda de transações de cerca de 95% apareceu já no fim de agosto de 2023, semanas depois do pico, enquanto o TVL e os novos usuários ainda brilhavam. O volume era o canário na mina. Ninguém olhou pro canário.

O caso tap-to-earn: 300 milhões de usuários que não eram usuários

Se TVL e volume mentem por construção, DAU mente por escala. E nenhum exemplo é mais grotesco que o Telegram.

Notcoin saiu de zero a cerca de 35 milhões de usuários em quatro meses, com 6 milhões de DAU no auge, distribuiu 80 bilhões de tokens NOT via blockchain TON e teve US$ 1 bilhão de volume só no primeiro dia de listagem (16 de maio de 2024). Tudo via Telegram Mini App, fricção zero, sem um dólar de mídia paga. O número de aquisição era irretocável.

Hamster Kombat foi mais longe: 300 milhões de jogadores comunicados em torno de agosto de 2024, recorde Guinness de crescimento, um clicker de hamster que juntou mais gente do que a população dos Estados Unidos. Aí o token HMSTR saiu, em setembro de 2024. A maioria dos jogadores recebeu o equivalente a US$ 1 a US$ 10. Três meses depois, em novembro de 2024, a base ativa tinha desabado para 41 milhões: uma perda de cerca de 260 milhões de jogadores. O HMSTR caiu 76%, de US$ 0,01004 para US$ 0,0024.

O próprio fundador do Notcoin foi o mais honesto sobre o que aquele número de cabeças realmente valia. Ele declarou ao The Block que o modelo clicker, do jeito que estava, não seria sustentável: a pessoa não vinha pelo jogo, vinha pelo token, e quando o token chegava, a razão de abrir o app evaporava junto.

Trezentos milhões de DAU é o número de aquisição mais impressionante da história da cripto. E 260 milhões deles eram fila de banco esperando o brinde. A métrica de cabeça não mentiu sobre o tamanho da fila. Mentiu sobre o que a fila era.

A epidemia do airdrop: o número que prova que a métrica errada custa caro

A consequência de medir aquisição em vez de retenção tem cifra. Segundo a DappRadar, 88% dos tokens distribuídos via airdrop perdem valor em até três meses (DappRadar). Quase nove em cada dez. Os projetos pagam para encher a dashboard de "novos holders" e a base mercenária faz o que mercenário faz: claim, dump, tchau.

Esse é o ponto onde a métrica de vaidade vira prejuízo contábil. Cada novo usuário que entra só pelo airdrop infla o DAU, o número de holders e o TVL temporário, e some no dia seguinte ao claim deixando um token derretendo no caminho. A dashboard registrou um pico de saúde. O balanço registrou uma queima de capital.

A leitura honesta é incômoda: a maior parte do orçamento de "growth" em cripto é gasta comprando exatamente as métricas que pioram quando você as compra. Você infla o DAU pagando gente que vai embora, e o número que sobe hoje é o mesmo que vai colapsar publicamente daqui a três meses.

5 métricas que realmente importam

A pergunta não é "como subir os números". É "quais números não dá pra fingir". Estas cinco resistem ao wash trading, ao subsídio e ao farmer mercenário, porque medem permanência, não entrada, e são justamente as que vale a pena expor num dashboard público na Dune.

1. Retenção por cohort (D7, D30, D90)

A métrica-mãe. Pega o grupo que entrou numa semana e mede quantos ainda estavam ativos sete, trinta e noventa dias depois. Um produto saudável achata num platô (um núcleo sempre volta). Um produto de hype vai a zero. Friend.tech tinha o segundo tipo, e a curva de cohort denunciou o fim meses antes da dashboard admitir. Segundo dados da Helika e do The Block (Q4 2024), a retenção média de jogos web3 ficou na faixa de 5% a 20%, contra um benchmark saudável de 20% a 30%. Se você só reporta um número da semana, reporte esse.

2. REV (Real Economic Value)

Receita real de taxas, descontados os incentivos que o protocolo bombeia pra inflar atividade. É o que separa um protocolo que ganha dinheiro de um que está subsidiando a própria fila. TVL bruto soma depósito; REV mede o que sobrou de receita genuína. Solana superou Ethereum em REV em outubro de 2024 porque o valor lá pagava taxas de verdade, não porque tinha o maior número nominal.

3. Razão de capital orgânico vs. incentivado

Quanto do TVL fica quando o incentivo seca. No caso Saber, US$ 7,5 bilhões de US$ 10,5 bilhões eram capital reciclado pela mesma pessoa: 71% de TVL fantasma. A pergunta não é "quanto entrou", é "quanto fica sem você pagar pra ficar". Capital que só está ali pelo subsídio não é base, é aluguel.

4. Concentração da distribuição (Gini de holders)

Quem realmente segura o token depois do evento. No airdrop da Friend.tech, a maior whale (Murphys1d) vendeu mais de 55 mil tokens em horas e derrubou o preço 52,5% sozinha. Um airdrop "bem-sucedido" em número de holders pode esconder uma concentração que vira bomba-relógio de venda. Distribuição pulverizada entre quem usa o produto vale mais que um headline de "milhões de novos holders".

5. Custo de aquisição vs. valor retido (não vs. valor que entrou)

O CAC só significa algo confrontado com quem ficou, não com quem passou. Friend.tech terceirizou a aquisição pros próprios KOLs via fee de 5% e teve CAC perto de zero. Não adiantou: o valor retido também foi a zero. Aquisição barata de gente que não volta é cara, porque você paga de novo todo mês pra repor a sangria. O número que importa é quanto custa adquirir um usuário que ainda está ativo em D90.

O que isso significa pra quem faz marketing cripto

A Kaleidos analisa esses colapsos pra não repetir o erro deles com cliente nenhum. A diferença entre os dois tipos de métrica não é técnica, é de coragem: a métrica de vaidade rende screenshot bonito hoje e autópsia pública daqui a três meses; a métrica de valor rende uma conversa desconfortável agora e um projeto vivo depois.

Por isso toda campanha que sai daqui nasce com a pergunta de cohort embutida. Antes de comemorar TVL, novo usuário ou volume, a métrica que define se o trabalho funcionou é D7/D30/D90: quem entrou pelo nosso conteúdo voltou? Se a aquisição sobe e a curva de cohort vai a zero, a campanha foi cara e o produto está doente, e o papel da agência é dizer isso ao cliente antes do airdrop, não na autópsia.

Quando uma dashboard só te mostra números que sobem, desconfie. Ela não está te informando. Está te consolando.

Fontes

  • DappRadar, 88% dos tokens de airdrop perdem valor em 3 meses: https://dappradar.com/blog/airdrop-tokens-lose-value
  • DLNews, Friend.tech shutdown, US$ 44 mi pros criadores, ~US$ 90 mi em fees totais: https://www.dlnews.com/articles/defi/friend-tech-shuts-down-after-revenue-and-users-plummet/
  • The Block, renúncia dos contratos e fees de US$ 71 no dia do shutdown: https://www.theblock.co/post/315172/friend-tech-team-renounces-control-of-smart-contracts-following-stagnant-growth
  • CoinDesk, queda de ~95% no volume da Friend.tech (ago/2023): https://www.coindesk.com/tech/2023/08/31/scores-of-friendtech-users-remain-active-even-as-trading-volumes-drop-95
  • The Block, Friend.tech empurra DAU da Base acima de 136 mil (ago/2023): https://www.theblock.co/post/244333/coinbase-l2-base-dau-friendtech
  • Bloomberg / Cointelegraph, whale Murphys1d derruba o token 52,5% (mai/2024): https://cointelegraph.com/news/friend-tech-airdrop-largest-recipient-sells-tokens
  • TON Blog, Notcoin de zero a milhões de jogadores: https://blog.ton.org/virality-masterclass-notcoins-rise-to-4m-players
  • The Block, airdrop Notcoin / volume e listagem: https://www.theblock.co/post/294864/notcoin-not-token-airdrop-ton
  • Cointelegraph, Hamster Kombat recorde Guinness e 200M+ usuários: https://cointelegraph.com/news/hamster-kombat-guinness-world-record-200m-users
  • Crypto Times, Hamster Kombat perde 260 mi de jogadores em 3 meses (nov/2024): https://www.cryptotimes.io/2024/11/05/hamster-kombat-loses-260-million-players-in-3-months-end-of-the-road/
  • Coingape, HMSTR despenca na estreia: https://coingape.com/markets/hamster-kombat-price-prediction-hmstr-plunges-45-on-debut-whats-next/

Perguntas frequentes

O que é REV e por que importa mais que TVL bruto?

REV (Real Economic Value) é a receita real de taxas pagas por uso genuíno, descontando os incentivos que o protocolo bombeia para inflar atividade. TVL bruto soma depósitos sem perguntar de onde vem o dinheiro: no caso Saber, o dev Ian Macalinao operou 11 identidades falsas e cerca de US$ 7,5 bilhões dos US$ 10,5 bilhões de TVL da Solana eram o mesmo dinheiro contado várias vezes. A Solana superou a Ethereum em REV em outubro de 2024 porque o valor lá pagava taxas de verdade.

O que o caso Hamster Kombat ensina sobre DAU?

Que cabeça que entra e some também conta como DAU. O Hamster Kombat comunicou 300 milhões de jogadores em torno de agosto de 2024, com recorde Guinness de crescimento. O token HMSTR saiu em setembro de 2024 e a maioria recebeu o equivalente a US$ 1 a US$ 10. Em novembro de 2024 a base ativa tinha desabado para 41 milhões, uma perda de cerca de 260 milhões de jogadores, e o HMSTR caiu 76%. A métrica não mentiu sobre o tamanho da fila, mentiu sobre o que a fila era.

Quais são as cinco métricas que realmente importam em marketing cripto?

Retenção por cohort (D7, D30, D90), a métrica-mãe que denuncia produto de hype; REV, a receita real descontado o subsídio; razão de capital orgânico versus incentivado, que mede quanto fica quando o incentivo seca; concentração da distribuição de holders, porque uma whale sozinha derrubou o token da Friend.tech em 52,5%; e custo de aquisição confrontado com o valor retido em D90, não com o valor que apenas entrou.

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Gabriel Madureira

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