Friend.tech: a ascensão e o sumiço, ou por que hype não é retenção
Cripto//
20 min
Friend.tech: a ascensão e o sumiço, ou por que hype não é retenção
Em agosto de 2023, o Crypto Twitter inteiro travou na mesma pergunta: "quanto custa a sua key?" Friend.tech tinha acabado de lançar na Base, a L2 da Coinbase, e em poucas semanas já somava mais de 100 mil endereços e dezenas de milhares de
Resumo
A Friend.tech virou o maior protocolo da rede Base em semanas e gerou perto de US$ 90 milhões em fees, mas colapsou por falta de retenção: os fees diários caíram de cerca de US$ 2 milhões no pico para US$ 71 no shutdown, em setembro de 2024. Aquisição viral sem motivo de retorno é um relógio rodando.
Gabriel Madureira
Hype não é retenção.
Cripto
Friend.tech: a ascensão e o sumiço, ou por que hype não é retenção
Um app cobrou US$ 2 milhões de fees em um único dia. Treze meses depois, cobrou US$ 71. No mesmo dia. Não houve hack, não houve rug, não houve crash de mercado que justificasse. O produto simplesmente parou de dar motivo pra alguém voltar. Esse é o case mais didático que o mercado cripto já produziu sobre a diferença entre encher um app e manter um app cheio.
TL;DR
Continue por dentro
Um estudo denso por quinzena, direto no seu email.
Os bastidores de por que tokens e projetos crescem. Sem ruido, sem spam.
A Friend.tech foi de zero a maior protocolo da rede Base em semanas, gerou perto de US$ 90 milhões em fees na vida toda e, pouco mais de um ano depois, estava com usuários ativos diários na casa de um dígito. Não foi golpe. Foi pior: foi um produto sem motivo pra voltar.
O dado-choque da retenção: o pico de fees diários bateu cerca de US$ 2 milhões (set/2023). No shutdown de fato (10/set/2024), os fees do dia somaram US$ 71 (The Block). Uma queda de 99,996% entre o auge e o fim.
A aquisição mascarou a retenção podre. As métricas de topo (TVL, novos usuários, volume) brilhavam por meses enquanto quase ninguém voltava ao app. A queda de transações de ~95% apareceu já no fim de agosto de 2023, semanas após o pico (CoinDesk).
A bonding curve (n²/16000) é um motor de aquisição, não de hábito. Ela cria corrida pra entrar cedo e zero razão pra usar depois. O design financeiro premiava segurar a key, não conversar no chat: o ativo canibalizou o produto.
O airdrop foi o tiro de misericórdia, não o renascimento. Em 3/mai/2024 o token despencou cerca de 98% do topo intradiário de baixa liquidez; a maior whale (Murphys1d) vendeu 55 mil tokens em horas e derrubou o preço 52,5% sozinha, de US$ 3,26 pra US$ 1,32 (Bloomberg, Cointelegraph).
A lição que vale dinheiro: tokenizar acesso não é criar comunidade. Espiral de preço não é loop de retenção. E todo growth que depende de fluxo infinito de novos entrantes é um relógio rodando.
O foguete que esqueceu de ter segundo estágio
Em agosto de 2023, o Crypto Twitter inteiro travou na mesma pergunta: "quanto custa a sua key?" Friend.tech tinha acabado de lançar na Base, a L2 da Coinbase, e em poucas semanas já somava mais de 100 mil endereços e dezenas de milhares de ETH em volume de negociação. Só nas primeiras 24 horas, o beta por convite movimentou 4.400 ETH (cerca de US$ 8,1 milhões) em volume, superando o OpenSea na mesma janela (CoinDesk). O app sozinho empurrou o número de usuários ativos diários da Base acima de 136 mil (The Block). Influenciador comprando key de influenciador, gente apostando em si mesma, perfil virando ativo financeiro com cotação ao vivo. Era a coisa mais nova que tinha acontecido no mercado depois de meses de bear.
Cobertura do lançamento: o app fez US$ 8,1 milhões de volume em 24h e ofuscou o OpenSea — CoinDesk, ago/2023
Pouco mais de um ano depois, o time devolveu o controle dos contratos pra um endereço nulo (uma renúncia irreversível de poder e de receita futura) e o app simplesmente parou de importar. Entre um momento e outro, Friend.tech chegou a responder por uma fatia enorme de toda a atividade da rede Base. Foi o app-âncora de uma blockchain da Coinbase. E sumiu.
Isso aqui não é uma história de fraude. É uma história sobre a diferença, cara e silenciosa, entre as pessoas quererem entrar e as pessoas quererem ficar. Quem trabalha com crescimento (e a gente trabalha) precisa entender Friend.tech de cor, porque ele errou exatamente no ponto que separa um lançamento viral de um negócio de verdade.
O que era, em uma frase
Cada usuário tinha "shares" tokenizadas (depois rebatizadas de "keys"). Comprar a key de alguém te dava acesso a um chat privado com essa pessoa. Quanto mais gente comprava a sua key, mais cara ela ficava. O fundador era um dev anônimo conhecido como Racer, já veterano de projetos de social cripto (TweetDAO, Stealcam), e o seed veio da Paradigm em agosto de 2023.
Guarde esse detalhe da Paradigm: lá na frente, quando o token saiu, a própria Paradigm recusou a alocação dela no airdrop. Quando um dos investidores mais cobiçados do mercado abre mão da bag de graça, é sinal de que ele já leu o final do livro.
A mecânica que importa: a bonding curve
O coração do negócio era uma curva de preço quadrática. O preço da próxima share, em ETH, era:
`` preço = n² / 16000 `
Onde n é o supply atual de shares daquela pessoa. Traduzindo do matematiquês: a primeira key de qualquer perfil era baratíssima, e cada nova compra encarecia exponencialmente a próxima. Comprar a key 5 era trivial; comprar a key 500 doía. (Detalhe técnico: o preço de venda usava (n-1)²/16000, então havia um spread embutido entre comprar e vender, que só aumentava conforme o supply crescia.)
O efeito prático disso é uma corrida de early adopter embutida no código. Se você acreditava que um perfil ia bombar, o jogo era entrar antes de todo mundo, porque você compraria barato e cada novo comprador depois de você empurraria a sua posição pra cima. Não é escassez de marketing ("últimas vagas!"), é escassez matemática, programada, impossível de fingir.
Em cima de tudo isso rodava um fee de 10% por transação: 5% pro criador (o dono da key) e 5% pra plataforma. Esses 5% da casa viraram uma das máquinas de receita mais brutais que um app social cripto já viu.
No auge do hype, parte do mercado já tinha cravado o diagnóstico. A crítica não era moral, era estrutural: uma curva que só sobe se mais gente entra.
"How is Friend.tech not a clear-as-day Ponzi? You buy and if more people buy that group it goes up, the only way to appreciate is more people coming in, with the inevitability of a load of bag holders. What am I missing?" — @ChartGuys (analista de mercado), no pico do hype, ago/2023, citado por Decrypt
Os números (pico → fim)
Vale olhar a curva inteira, porque ela conta a história sozinha. (Os valores abaixo cruzam reportagens da época, DefiLlama e análises secundárias. Onde há aproximação, está marcado.)
A subida (2023):
Nos primeiros dias após o lançamento (10/ago), o volume cumulativo saltou de poucos milhões para a casa das dezenas de milhões de dólares em cerca de duas semanas.
Final de agosto: a transação acumulada passou de 45 mil ETH, com receita de protocolo já na casa de milhares de ETH.
Início de setembro: TVL na faixa de US$ 20 a 50 milhões, dependendo da fonte e do dia.
Setembro: pico de fees diários perto de US$ 2 milhões e fee revenue mensal saltando de cerca de US$ 160 mil (agosto) pra patamar de milhões.
Outubro: pico de depósitos, com TVL passando de US$ 50 milhões.
A descida (2023-2024):
28 de agosto, primeiro susto: as transações diárias e o volume de negociação despencam, queda de cerca de 95% em poucos dias (CoinDesk).
Dezembro de 2023: as transações diárias já estavam em frações do pico, e veículos como o BanklessTimes já falavam no "fim da Friend.tech".
Meados de 2024: usuários ativos diários na casa de um dígito em vários dias.
Por volta de agosto de 2024: em 30 dias, o protocolo gerou US$ 21 de receita. Vinte e um dólares (CryptoSlate).
10 de setembro de 2024: shutdown de fato. O time renunciou ao controle dos contratos, depósitos colapsaram, os fees do dia somaram US$ 71 e o DAU estava em dígito único (The Block, DLNews).
Métrica
Pico
Fim
Direção
TVL / depósitos
> US$ 50 mi (out/23)
colapso
queda quase total
Fees diários
~US$ 2 mi (set/23)
US$ 71 (set/24)
≈ −99,996%
Receita mensal
milhões (set/23)
US$ 21 em 30 dias
colapso total
Novos usuários/dia
dezenas de milhares (out/23)
dígito único
≈ −99,9%
Transações/dia
centenas de milhares (set/23)
centenas
≈ −99%
Página do protocolo no DefiLlama: 1 endereço ativo em 24h, 0 novos endereços, 1 transação — o atestado on-chain de um app que parou de importar — DefiLlama, friend.tech
Na vida toda, Friend.tech acumulou perto de US$ 90 milhões em fees, e o time embolsou legitimamente cerca de US$ 44 milhões disso via taxa de plataforma (DLNews). Metade do valor gerado ficou com a casa. Segura esse número, ele volta.
Por que funcionou de verdade (no curto prazo)
O lançamento foi, sem ironia, uma aula de engenharia de hype. Vale dissecar os gatilhos, porque vários deles funcionam de verdade e a gente usa versões deles, com responsabilidade, no mercado.
1. Status e dinheiro fundidos no mesmo clique. Comprar a key de alguém era ao mesmo tempo uma aposta financeira (o preço sobe com a demanda) e um sinal social (você tem acesso ao chat dela). Ganância, FOMO e pertencimento dispararam juntos. Quase nenhum produto consegue acionar os três ao mesmo tempo.
2. Urgência matemática, não urgência de copy. A bonding curve fazia o early mover ganhar de verdade se o perfil decolasse. Cada novo perfil que entrava na plataforma virava uma nova corrida de "entrar antes". A escassez estava no contrato, não no banner.
3. Points sem token anunciado = farming máximo. No começo não existia token. A comunidade presumiu que viria um airdrop (e estava certa). Resultado: gente usando o app freneticamente "por garantia", inflando todas as métricas. Boa parte da explosão de TVL daqueles primeiros meses tem isso dentro: especulação sobre um incentivo que ninguém tinha confirmado ainda.
4. Distribuição terceirizada pros próprios KOLs. O fee de 5% pro criador transformou cada influenciador num vendedor afiliado do app. Pra valorizar a própria key, ele precisava trazer audiência pra dentro da plataforma. A aquisição de usuário foi terceirizada e auto-incentivada. Genial, no papel.
5. Timing de ciclo perfeito. Meados de 2023: pós-bear, mercado faminto por narrativa nova. "SocialFi" era território virgem, e a Base recém-lançada precisava de um app-âncora. Friend.tech preencheu os dois vazios de uma vez.
6. Convite gated e mobile-first. Acesso por código de convite (mais exclusividade) e um app de celular fluido, enquanto a maioria do DeFi ainda era desktop travado e feio.
Junte tudo e você tem um flywheel especulativo. Funcionava lindamente, com uma condição: que novos compradores continuassem chegando. O modelo exigia fluxo contínuo de entrantes pra sustentar as curvas. E aí mora o problema.
A lição central: retenção é o oposto de hype, e o gráfico de cohort prova isso
O dado mais cruel de toda a história não está no colapso. Está no auge. Por meses, a máquina de aquisição estava tão potente que escondeu o fato de que quase ninguém ficava. As métricas de topo (TVL, novos usuários, volume) brilhavam enquanto o motor de retenção apodrecia por baixo. Quando a queda de transações de 95% bateu já no final de agosto de 2023 (CoinDesk), o sintoma virou impossível de ignorar: muita gente entrava, quase ninguém voltava.
Tem uma ferramenta que teria denunciado isso desde a primeira semana, e que quase ninguém olhou no calor do hype: o gráfico de cohort de retenção. Cohort é simples: você pega o grupo de gente que entrou numa semana e mede quantos ainda estavam ativos uma semana depois, um mês depois, três meses depois. Um produto saudável tem a curva que achata num platô (um núcleo fiel sempre volta). Um produto de hype tem a curva que vai pra zero.
A Friend.tech tinha o segundo tipo. Reconstruindo de forma ilustrativa o que as transações por cohort mostravam (números aproximados, pra didática):
Cohort de entrada
Ativos em D7
Ativos em D30
Ativos em D90
Produto saudável (referência)
40–60%
25–35%
20–30% (platô)
Friend.tech (estimado)
~15–20%
dígito baixo
≈ 0%
A leitura é brutal: a aquisição cobria a sangria. Enquanto novos entrantes chegavam mais rápido do que os antigos saíam, o TVL e o volume continuavam subindo. O gráfico de topo dizia "estamos crescendo". O gráfico de cohort dizia "estamos morrendo". Os dois eram verdade ao mesmo tempo. É por isso que retenção é o oposto de hype: hype é a velocidade com que gente nova entra, retenção é a probabilidade de quem entrou ainda estar ali amanhã. Você pode comprar o primeiro. O segundo, não.
Por que ninguém ficou? Quatro motivos que se reforçam:
Não havia razão pra voltar. Você comprava a key, entrava no chat e... os chats eram rasos, de baixa frequência, sem motivo de retorno diário. O acesso era a única utilidade, e acesso é uma compra única, não um hábito. Faltou o que todo produto de retenção precisa: um motivo recorrente pra abrir o app amanhã.
A própria mecânica financeira punia o uso. Como o preço subia com a demanda, segurar a key e torcer pela valorização era mais racional do que de fato conversar no chat. O ativo financeiro canibalizou o produto social. Os usuários viraram traders, não membros de comunidade. O design incentivava exatamente o comportamento que matava o produto.
A base era mercenária. A maioria era especulador caçando airdrop e flip de curto prazo, não gente interessada no conteúdo. Quando o airdrop finalmente saiu, em 3 de maio de 2024, os mercenários fizeram o que mercenário faz: claim, dump, tchau.
O airdrop foi o tiro de misericórdia, não o renascimento. No dia do lançamento do token (3/mai/2024), a distribuição saiu concentrada e muita gente reclamou de receber menos do que esperava, enquanto tinha problema técnico pra reivindicar o airdrop. Poucas horas depois do launch, o token desabou: caiu cerca de 98% em relação ao topo intradiário de baixíssima liquidez (Bloomberg). O gatilho da derrubada foi o maior recebedor do airdrop, uma whale (apelido Murphys1d`), que vendeu mais de 55 mil tokens em horas: sozinha, essa venda derrubou o preço 52,5%, de US$ 3,26 pra US$ 1,32 numa janela de poucas horas (Cointelegraph, Invezz). Pra piorar, a carteira da whale parecia ligada a uma conta falsa no X, sem atividade, que farmou mais de 500 mil pontos sem risco. O evento que deveria recompensar a comunidade destruiu o que restava de confiança nela.
Manchete do dia do airdrop: whale derruba o token enquanto usuários não conseguem nem reivindicar — Invezz, mai/2024
E não era só a whale. Enquanto o preço derretia, parte da base nem conseguia claimar o airdrop por causa de travamento técnico:
"Watching the value of my airdrop go from 7 figures to 5 figures in the span of 2 hours while I keep refreshing the page trying to claim….still can't claim." — @LukeMartin (investidor cripto), no dia do airdrop, 3/mai/2024, citado por Cointelegraph
E a resposta do time à sangria? Mais paywall. O V2 trouxe os "Clubs" (chats em grupo com governança e fee em FRIEND), com um marketing deliberadamente elitista (a comunicação da época sugeria, em tom de provocação, que o app era pra quem tinha dinheiro). Spoiler: ninguém quis pagar pra ser membro de uma chatroom. Segundo o próprio Cryptopragmatist, os Clubs simplesmente fracassaram. O lançamento do V2 ainda veio com caos técnico (gente sem conseguir reivindicar token nem entrar nos clubs), e o time chegou a anunciar migração pra chain própria e voltar atrás em seguida. Cada decisão errática queimava mais credibilidade.
A lição central cabe numa linha: Friend.tech confundiu espiral de preço com loop de retenção. A bonding curve gera aquisição (todo mundo quer entrar cedo), mas não gera hábito (ninguém volta pelo produto em si). Um loop de retenção de verdade precisa de uma razão recorrente, intrínseca, independente do preço do ativo. Friend.tech nunca teve.
Honestidade intelectual: o que não dá pra falar de leve
Três ressalvas, porque acusar errado é tão preguiçoso quanto elogiar errado.
Não foi rug nem scam. Os criadores devolveram os contratos a um endereço nulo, renunciando a fees futuros: o oposto de um exit fraudulento. Eles lucraram dentro das regras que eles mesmos publicaram. A crítica legítima não é "roubaram", é "capturaram metade do valor (US$ 44 mi de US$ 90 mi) enquanto boa parte da comunidade ficou segurando token sem liquidez". É um problema de desenho de incentivo, não de crime.
A imprensa registrou a renúncia dos contratos (8/set/24) com os fees já em US$ 71 no dia — The Block, set/2024O fechamento em uma manchete: criadores saíram com US$ 44 milhões enquanto receita e usuários colapsavam — DLNews, set/2024
O modelo provou que existe demanda real por SocialFi. Nenhum app social cripto tinha gerado fee revenue mensal na casa dos milhões antes. O experimento validou o interesse. O que ele não validou foi a sustentabilidade. SocialFi não morreu (Farcaster, Lens seguem evoluindo), mas Friend.tech provou na marra que tokenizar acesso não é igual a comunidade.
Alguns números são aproximados. As cifras de pico de DAU, FDV e TVL variam bastante de fonte pra fonte (e algumas vêm de análise secundária, não de leitura on-chain primária), por isso este texto trabalha com faixas onde a fonte não é exata. E aquele preço de três dígitos que o token tocou no dia 1? Foi pico instantâneo de baixíssima liquidez, ordem rasa, não preço sustentado. A referência honesta pra medir a queda de longo prazo é o topo real de negociação, não o print de tela do primeiro minuto.
E a fragilidade estrutural que sempre esteve lá: depois do pico, o modelo era matematicamente um jogo de soma negativa. Bonding curves só pagam bem quem vende antes; quando o fluxo de entrada para, alguém fica com o mico na mão. Era um relógio rodando desde o dia 1. A dúvida nunca foi se, só quando.
O que dá pra replicar (e o que dá pra evitar) no mercado BR
A parte útil. Tira o que funciona, joga fora o que mata.
Vale copiar:
Distribuição via creator, não via ads. Transformar o influenciador em parte interessada no sucesso do produto (não só num post pago avulso) é o gatilho de aquisição mais forte que Friend.tech ativou. No BR, onde a creator economy é forte e o tráfego pago de cripto sofre com restrição regulatória e de plataforma, alinhar incentivo de creator é ouro. Só que o alinhamento tem que sobreviver depois do hype.
Escassez no produto, não na copy. "Últimas vagas" todo mundo já aprendeu a ignorar. Mecânica de early mover de verdade, onde quem chega antes ganha algo real e verificável, ainda funciona.
Timing de narrativa vazia. Friend.tech ocupou um vácuo (SocialFi mais app-âncora da Base). No BR ainda tem vácuo: estúdio cripto com voz autoral em português é território quase virgem. Quem chega primeiro num espaço vazio paga preço de aquisição muito mais barato.
Vale evitar como o diabo da cruz:
Confundir métrica de aquisição com saúde. TVL subindo, novos usuários explodindo, volume na lua: nada disso te diz se a pessoa volta. A pergunta que importa é a chata: qual a retenção em D7, D30, D90? Friend.tech tinha a resposta ruim escondida embaixo dos números bonitos e levou meses pra encarar.
Deixar o ativo financeiro canibalizar o produto. Se o jeito mais racional de "usar" o seu produto é não usar (só segurar e especular), você não tem um produto, tem uma mesa de aposta com hora pra fechar.
Tratar airdrop/lançamento como resgate. Recompensar uma base mercenária só acelera a saída. O evento de distribuição deveria coroar uma comunidade que já existe, não tentar fabricar uma que nunca existiu.
Responder queda de retenção com mais paywall e elitismo. A solução pra "ninguém volta" nunca é "cobra mais de quem sobrou".
Fechamento
Friend.tech é o melhor case grátis que o mercado cripto produziu sobre uma verdade que vale pra qualquer produto, de qualquer setor: lançamento viral é um evento, retenção é um negócio. Dá pra fabricar um pico de quase US$ 2 milhões de fees por dia com engenharia de incentivo. Não dá pra fabricar o motivo de alguém voltar amanhã. Esse você constrói no produto, não na curva de preço.
A leitura que separa quem analisa hype de quem constrói crescimento é justamente essa: olhar para o auge, ver a retenção apodrecendo no exato momento em que todo mundo comemorava os novos usuários, e entender que aquele já era o roteiro do fim sendo escrito. O resto foi só o relógio terminando de rodar.
No fim, hype é a faísca. Retenção é o combustível. E faísca sem combustível dá um clarão lindo por alguns segundos, e depois escuro.
O que a Kaleidos tira disso
A gente analisa case de cripto pra não repetir o erro dele com cliente nenhum. Três coisas que a Friend.tech transformou em método operacional aqui dentro:
Toda campanha nasce com a pergunta de cohort embutida. Antes de comemorar TVL, novo usuário ou volume, a métrica que define se o trabalho funcionou é D7/D30/D90: quem entrou pelo nosso conteúdo voltou? Se o lançamento sobe a aquisição mas a curva de cohort vai pra zero, a campanha foi cara e o produto está doente, e o nosso papel é dizer isso ao cliente antes do airdrop, não depois.
Incentivo de creator que sobrevive ao hype, não que depende dele. O acerto real da Friend.tech foi terceirizar distribuição pros próprios KOLs com skin in the game. A gente copia o gatilho e conserta o furo: o alinhamento do creator tem que estar atrelado a uso recorrente e a um motivo de a audiência ficar, não a um flip de pico. Distribuição via creator é o motor de aquisição mais barato no BR, mas só vale se houver loop de retenção do outro lado.
Tokenizar acesso não é construir comunidade, e a gente fala isso na cara do cliente. Quando o desenho de incentivo premia farm-and-dump, nenhum carrossel "comunidade forte" cola: o mercado lê a verdade na cadeia. A primeira pergunta da Kaleidos num projeto cripto não é "qual o tom de voz?", é "o que esse design recompensa, ficar ou sair?". É daí que sai toda a comunicação honesta.
The Block, renúncia dos contratos (10/set/24) e fees de US$ 71 no dia do shutdown: https://www.theblock.co/post/315172/friend-tech-team-renounces-control-of-smart-contracts-following-stagnant-growth
DLNews, airdrop e queda do token: https://www.dlnews.com/articles/defi/friendtech-friend-token-falls-after-community-airdrop/
CoinDesk, queda de ~95% no volume mantendo usuários ativos (ago/2023): https://www.coindesk.com/tech/2023/08/31/scores-of-friendtech-users-remain-active-even-as-trading-volumes-drop-95
CoinDesk, primeira cobertura e volume inicial (ago/2023): https://www.coindesk.com/web3/2023/08/11/is-friendtech-a-friend-or-foe-a-dive-into-the-new-social-app-driving-millions-in-trading-volume
Bloomberg, crash de ~98% do token: https://www.bloomberg.com/news/articles/2024-05-03/crypto-s-social-media-friend-tech-saw-token-value-crashed-98
Cointelegraph, maior recebedor do airdrop vendeu em massa: https://cointelegraph.com/news/friend-tech-airdrop-largest-recipient-sells-tokens
CryptoSlate, US$ 21 em 30 dias e entrega dos contratos: https://cryptoslate.com/generating-only-21-in-revenue-in-30-days-friendtech-relinquishes-control-of-contracts/
Cryptopragmatist, cautionary tale, Paradigm recusou o token, Clubs flopou: https://cryptopragmatist.com/p/rise-fall-friendtech-cautionary-tale-web3-developers
Medium/Coinmonks, deep dive na bonding curve n²/16000 e fee 10%: https://medium.com/coinmonks/a-deep-dive-into-friend-tech-5fb40bd6b034
TokenInsight, investimento da Paradigm: https://tokeninsight.com/en/news/decentralized-social-platform-friend.tech-received-investment-from-paradigm
Invezz, whale "Murphys1d" derrubou o token e usuários travados no claim: https://invezz.com/news/2024/05/03/friend-tech-whale-triggers-token-plunge-users-struggle-amid-airdrop-chaos/
Decrypt, críticos chamando de Ponzi de bonding curve no auge (ago/2023): https://decrypt.co/153248/friend-tech-is-cryptos-latest-obsession-but-critics-say-it-wont-end-well
The Block, friend.tech empurra DAU da Base acima de 136 mil (ago/2023): https://www.theblock.co/post/244333/coinbase-l2-base-dau-friendtech
DefiLlama, página do protocolo friend.tech (fees, receita, atividade on-chain): https://defillama.com/protocol/friend.tech
Fortune, fees e transações despencam semanas após o debut (ago/2023): https://fortune.com/crypto/2023/08/28/crypto-social-app-friend-tech-falls-flat/
CoinGecko Research, top 25 contas por royalties (Cobie no topo): https://www.coingecko.com/research/publications/friend-tech-royalty-earnings
Perguntas frequentes
O que era a Friend.tech e como funcionava?
Um app social na Base, lançado em agosto de 2023 com seed da Paradigm, onde comprar a key de alguém dava acesso a um chat privado. O preço seguia uma bonding curve quadrática (n²/16000): cada nova compra encarecia a próxima, criando corrida de early adopter embutida no código. Cada transação pagava fee de 10%, metade para o criador e metade para a plataforma. Nas primeiras 24 horas, movimentou cerca de US$ 8,1 milhões em volume.
Por que a Friend.tech morreu?
Porque não havia razão para voltar. O acesso ao chat era compra única, não hábito, e a mecânica financeira punia o uso: segurar a key era mais racional que conversar. A base era mercenária, caçando airdrop. Quando o token saiu, em 3 de maio de 2024, caiu cerca de 98% do topo intradiário, com a maior whale derrubando o preço 52,5% sozinha. A queda de 95% nas transações já tinha aparecido semanas após o pico, em agosto de 2023.
A Friend.tech foi um golpe?
Não. O time devolveu o controle dos contratos a um endereço nulo, renunciando a fees futuros, o oposto de um exit fraudulento. Eles lucraram dentro das regras publicadas: cerca de US$ 44 milhões dos quase US$ 90 milhões em fees ficaram com a casa. A crítica legítima é de desenho de incentivo, não de crime: o modelo capturou metade do valor enquanto boa parte da comunidade ficou segurando token sem liquidez.
Gostou deste estudo?
A Kaleidos faz isso pelo seu projeto cripto.
Somos a agência cripto-nativa do Brasil. Estratégia, conteúdo e growth do jeito de quem entende o mercado on-chain. Fale com a gente e vamos construir atenção juntos.