Kaito: o mindshare virou token (e o token virou risco)
Tem uma frase que todo mundo do marketing repete sem pensar: "atenção é a moeda mais escassa do mundo". A Kaito olhou pra essa frase e fez a pergunta literal: se atenção é moeda, por que ninguém a precifica de verdade? Por que a gente conti
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- A Kaito fez a coisa mais ambiciosa do marketing cripto recente: transformar atenção em ativo mensurável. Ela mede quanto de "mindshare" (a fatia de conversa que você gera sobre um projeto no X) cada criador produz, e paga por isso. O marketing virou o próprio produto.
- A mecânica central é o Yaps: uma pontuação gerada por IA que mede contribuição de qualidade nas conversas sobre um projeto. Quem mais gera atenção relevante sobe no leaderboard, e o leaderboard vira fila de airdrop. Projetos passaram a literalmente pagar por mindshare, alocando tokens pros criadores no topo.
- O token KAITO lançou em fevereiro de 2025 com valuation totalmente diluído de US$ 1,7 bilhão (CryptoRank), montado sobre uma empresa fundada em Seattle em 2022 que tinha levantado pouco mais de US$ 10,8 milhões de fundos como Dragonfly e Sequoia China (Messari).
- O asterisco que reescreveu o case: em 15 de janeiro de 2026, o X cortou o acesso de API pra apps que pagam pra postar, citando enxurrada de "AI slop" e spam de respostas. A Kaito anunciou o fim do Yaps, o token caiu cerca de 17%, e uma comunidade de ~157 mil yappers foi banida do X (CoinDesk). O fundador admitiu: o modelo permissionless e movido a incentivo "não é mais viável".
- A lição mora justamente na queda: quando você paga por atenção, você não compra atenção. Você compra a otimização do que pagou. E o que foi otimizado foi volume de conteúdo, não qualidade. A plataforma que prometia premiar mérito acabou inundada pelo que prometia eliminar.
O case que tentou colocar preço na atenção
Tem uma frase que todo mundo do marketing repete sem pensar: "atenção é a moeda mais escassa do mundo". A Kaito olhou pra essa frase e fez a pergunta literal: se atenção é moeda, por que ninguém a precifica de verdade? Por que a gente continua pagando influencer por post, no escuro, sem medir o que de fato gerou conversa?
A resposta da Kaito foi construir uma camada inteira pra medir e pagar por atenção de forma transparente. Eles batizaram a categoria de InfoFi, abreviação de Information Finance (finanças da informação): a ideia de que atenção, informação e influência podem circular num mercado aberto, onde o valor flui pra quem de fato contribui (Crypto.com Research). Não é mais o projeto escolhendo a dedo quem patrocinar. É o mercado de atenção decidindo, com dados, quem merece a recompensa.
A Kaito foi fundada em Seattle em 2022 por Yu Hu, ex-Citadel, e começou como uma ferramenta de busca e inteligência pra cripto (Messari). O pulo do gato veio depois, quando ela transformou sua capacidade de ler o Crypto Twitter inteiro num produto de marketing: medir quem fala o quê sobre cada projeto, e ranquear. Esse ranking virou o coração de tudo. Vale destrinchar a engenharia, com os asteriscos marcados, porque é um dos cases mais reveladores e mais cautelares do marketing cripto recente.

Os números que definem o case
Antes da história, a foto. Seis números que mostram a ascensão e o tombo.
| O número | O que significa |
|---|---|
| US$ 1,7 bilhão de FDV | O valuation totalmente diluído do token KAITO no lançamento, em fevereiro de 2025 (CryptoRank). Um produto de marketing sendo precificado como infraestrutura. |
| 10% do supply no airdrop | A fatia distribuída pra comunidade no lançamento, recompensando quem acumulou Yaps no programa de pontos (CoinGecko). |
| ~US$ 10,8 milhões levantados | O total que a Kaito captou de VCs (Dragonfly, Sequoia China, Jane Street e outros) em duas rodadas de 2023 (Messari). Pouco capital, valuation de token altíssimo. |
| ~157 mil yappers | O tamanho da comunidade de criadores no X que foi banida quando o programa caiu (CoinDesk). O exército de atenção que a Kaito construiu. |
| ~17% de queda | Quanto o token KAITO caiu no dia em que o X cortou o acesso e a Kaito anunciou o fim do Yaps (BeInCrypto). |
| ~US$ 99 milhões de market cap | O valor de mercado do KAITO em junho de 2026, com preço na casa de US$ 0,41 (CoinGecko). Bem distante do brilho do FDV de lançamento. |

A jogada em fases
Antes de destrinchar a mecânica, a linha do tempo. Ela mostra que a Kaito não nasceu como produto de marketing. Ela virou um.
- 2022: fundação em Seattle por Yu Hu, ex-Citadel. O produto inicial é uma ferramenta de busca e inteligência pra cripto, focada em ler e organizar a informação dispersa do setor.
- 2023: duas rodadas de captação somando pouco mais de US$ 10,8 milhões, com fundos de peso como Dragonfly e Sequoia China. Ainda é uma empresa de dados, não de atenção.
- 2024: o pivô que define tudo. A Kaito percebe que sua capacidade de ler o Crypto Twitter inteiro pode virar um produto de marketing. Nasce o conceito de mindshare medido por IA, e o programa de pontos Yaps começa a rodar.
- Fev/2025: lançamento do token KAITO, com airdrop de 10% do supply pra quem acumulou Yaps. Listagem imediata em exchanges grandes, incluindo a Coinbase, e FDV de US$ 1,7 bilhão. O marketing virou ativo financeiro.
- 2025: auge do InfoFi. Projetos do mercado inteiro abrem leaderboards, alocam tokens pra yappers e passam a tratar mindshare como linha de orçamento. A categoria que a Kaito criou vira tendência.
- Jan/2026: o tombo. O X corta o acesso de API pra apps que pagam pra postar. A Kaito anuncia o fim do Yaps, o token cai cerca de 17% e a comunidade de yappers é banida.
- 2026: o pivô de sobrevivência. A Kaito troca o Yaps pelo Kaito Studio, um marketplace de criadores seletivo e multiplataforma, abandonando o modelo permissionless que a tinha consagrado.
A mecânica: como se tokeniza atenção
Esta é a parte que interessa pra quem faz marketing. A Kaito não inventou influencer marketing. Ela inventou uma forma de medir e pagar por ele que parecia objetiva, transparente e meritocrática. Vou nomear as quatro jogadas que carregam o case.
Jogada 1: o Yaps mediu o que ninguém media
O Yaps é a peça central. É uma pontuação gerada por IA que tenta medir não quanto você posta, mas quanto de atenção de qualidade você gera sobre um projeto específico no X. A IA da Kaito lê o Crypto Twitter, analisa engajamento, relevância e contribuição, e converte isso num número (BingX Academy).
A sacada de marketing: ao colocar um número em cima da conversa, a Kaito criou um placar. E placar muda comportamento. De repente, criadores não estavam mais postando pra ego ou pra alcance vago. Estavam postando pra subir no Yaps, com uma métrica concreta na frente. O que antes era arte virou esporte com pontuação. E esporte com pontuação engaja de um jeito que post solto nunca engajou.
Jogada 2: o leaderboard virou fila de airdrop
Aqui a mecânica fecha. Cada projeto podia ter seu próprio Yapper Leaderboard: um ranking público dos criadores que mais geraram mindshare sobre aquele projeto. E o topo do ranking não ganhava só status. Ganhava token.
Projetos como Polygon montaram leaderboards abertos onde "crescer mindshare" se traduzia diretamente em recompensa (Polygon). A Lombard alocou 1,6 milhão de tokens BARD pros yappers que ajudaram a construir conversa real sobre o protocolo (Lombard Docs).

O recado é poderoso: pela primeira vez, um projeto cripto podia terceirizar o próprio marketing pra uma multidão e pagar com base em performance medida, não em achismo. Em vez de contratar dez influencers no escuro, você abre um leaderboard e deixa centenas de criadores competirem pra gerar conversa sobre você. Pagar por mindshare deixou de ser metáfora. Virou linha de orçamento.
Jogada 3: o pré-lançamento como esporte de paciência
A jogada mais sofisticada foi como os melhores projetos usaram a fase pré-TGE (antes do token existir). Em vez de leaderboards de curto prazo, fáceis de manipular, alguns estenderam o ciclo por semanas ou meses. O Caldera, por exemplo, prolongou de propósito o ciclo do leaderboard na fase pré-lançamento, justamente pra dificultar a vida de quem queria arbitragem rápida (CoinGecko). Só quem produzia conteúdo de forma consistente e aprofundava o entendimento ao longo do tempo conseguia subir de forma estável.
O efeito é a mesma psicologia que faz airdrop farming funcionar: incerteza sobre a fórmula exata, recompensa real no fim, e a necessidade de aparecer de forma recorrente por medo de ficar de fora. Mas com uma camada nova: aqui o "trabalho" do farmer é criar conteúdo público sobre o projeto. Cada participante virava um canal de distribuição. O farming, antes invisível e on-chain, virou marketing visível e social.
Jogada 4: tornar o mindshare negociável
A ambição final da Kaito foi tratar mindshare não só como métrica de recompensa, mas como ativo financeiro de verdade. A empresa firmou parcerias pra tornar mindshare e sentimento negociáveis, deixando as pessoas apostarem na atenção de marcas, narrativas e figuras públicas (CoinGecko). É o passo lógico do InfoFi levado às últimas consequências: se atenção é moeda, ela deveria ter mercado, gráfico e especulação como qualquer ativo.
Essa jogada mostra a tese inteira da Kaito num único movimento. Não era só medir atenção. Era construir um mercado financeiro em cima dela. O marketing não viraria só produto. Viraria classe de ativo.
O furo: pagar por atenção compra a fraude da atenção
Marketing honesto mostra o asterisco. E o da Kaito é o mais importante do case, porque ele não é um detalhe lateral: ele reescreveu o futuro da empresa.
A lei de Goodhart cobrou a conta. Existe um princípio velho: quando uma métrica vira meta, ela deixa de ser uma boa métrica. A Kaito transformou mindshare em meta com dinheiro em cima. Resultado previsível: as pessoas pararam de otimizar por conversa de qualidade e passaram a otimizar pelo que o algoritmo de Yaps premiava. E como a recompensa era proporcional a volume de contribuição relevante, a estratégia mais segura virou produzir muito conteúdo, o tempo todo, sobre os projetos certos. O leaderboard, que prometia mérito, virou uma corrida de quantidade.
A IA transformou isso em enxurrada. Aqui o problema saiu de controle. Com ferramentas de IA generativa, ficou trivial produzir dezenas de posts "sobre o projeto X" por dia, todos genericamente positivos, todos otimizados pra parecer contribuição. O Crypto Twitter foi inundado de conteúdo de baixa qualidade gerado pra farmar Yaps. A própria Kaito passou o ano anterior tentando apertar os critérios: limites mais altos de leaderboard, filtros sociais e on-chain, designs alternativos de incentivo. Não adiantou. O spam persistiu, agravado por mudanças no algoritmo do X e por concorrentes de InfoFi lançando com limites mais fracos ou nenhum (CoinDesk).
O X puxou o tapete. Em 15 de janeiro de 2026, Nikita Bier, chefe de produto do X, anunciou que a plataforma não permitiria mais apps que pagam pra postar, citando diretamente a explosão de "AI slop e reply spam". O acesso programático de API foi revogado pros desenvolvedores afetados. A Kaito anunciou o fim do Yaps. O token caiu cerca de 17%, e a comunidade de aproximadamente 157 mil yappers foi banida do X (BeInCrypto).

A dependência de plataforma era o risco invisível. Esse é o aprendizado mais duro. A Kaito construiu um negócio bilionário em FDV inteiramente em cima do acesso ao X. Quando o X mudou a regra, não houve recurso, não houve negociação, não houve apelo. O fundador Yu Hu admitiu que o modelo permissionless movido a incentivo "não é mais viável" sob as restrições da plataforma. Construir em terreno alugado é frágil por definição, e a Kaito aprendeu isso da pior forma, com o token sangrando no mesmo dia.
O estrago foi de categoria, não só de empresa. A queda não atingiu só a Kaito. Como ela tinha criado a categoria InfoFi, a mudança do X derrubou o setor inteiro de uma vez. Tokens de projetos concorrentes de InfoFi caíram junto, porque todos compartilhavam a mesma premissa quebrada: pagar gente pra postar num app de terceiros (BeInCrypto).

E o asterisco mais importante de todos, pra não condenar antes da hora: a Kaito não morreu, e a tese não estava errada. A empresa pivotou pro Kaito Studio, um marketplace de criadores mais tradicional, seletivo, com parcerias diretas entre marca e criador, análises e distribuição multiplataforma, indo além do X pra YouTube e TikTok (CoinDesk). O que quebrou não foi a ideia de medir atenção. Foi a versão permissionless e paga-por-post dela, que se provou impossível de blindar contra spam em escala. A ideia de precificar mindshare continua de pé. O jeito ingênuo de fazer é que ruiu.
O que dá pra aprender (e o que dá pra evitar)
Tirando o ruído, o case ensina lições que valem pra qualquer marca, dentro ou fora do cripto.
- Medir atenção muda comportamento, pra melhor e pra pior. Colocar um placar em cima de conversa engaja. Mas todo placar com dinheiro em cima é hackeado. Quem desenha incentivo de atenção precisa assumir, desde o dia um, que vai ser gamed. A pergunta não é "se", é "como blindar".
- Pagar por atenção compra a otimização do que você pagou. Se você paga por volume, recebe volume. Se paga por menção positiva, recebe bajulação. A métrica que você premia é exatamente a que será fabricada. Escolha a métrica como quem escolhe o resultado, porque é isso que ela é.
- IA generativa quebra qualquer programa de conteúdo pago. O custo de produzir conteúdo plausível caiu a quase zero. Qualquer recompensa atrelada a "produzir conteúdo" agora compete com fábricas de slop. Programas de incentivo desenhados antes da IA generativa precisam ser refeitos partindo desse fato.
- Construir em terreno alugado é o risco que ninguém precifica. A Kaito dependia do X e o X mudou a regra num dia. Toda estratégia que depende totalmente de uma plataforma de terceiros carrega um risco existencial silencioso. Diversificar canal não é luxo. É seguro de vida.
- A tese pode estar certa mesmo quando a execução quebra. Precificar atenção é uma ideia poderosa. A primeira versão ruiu por excesso de ingenuidade contra o spam. Isso não invalida o conceito. Separar a tese da execução é o que distingue análise de torcida.
O que a Kaleidos tira disso
- Incentivo sem freio de qualidade vira spam. Antes de montar qualquer programa de criadores ou embaixadores pra um projeto, a gente desenha o mecanismo anti-gaming junto com o incentivo, não depois. A Kaito provou que apertar os critérios tarde demais não recupera o terreno perdido.
- Atenção é mensurável, mas mérito é difícil. A tese de precificar mindshare é legítima e a gente acredita nela. O trabalho está em medir contribuição real em vez de barulho. É exatamente o tipo de rigor que separa um programa que constrói comunidade de um que só infla número de vaidade.
- Dependência de plataforma é risco de marca, não detalhe técnico. A queda da Kaito veio de fora, de uma decisão do X. A leitura prática pra qualquer projeto que tocamos: nunca construir a casa inteira em terreno de terceiros. Distribuição própria, lista própria, canal próprio. Quem aluga tudo fica refém de uma mudança de regra que não controla.
Fontes
- CoinDesk (fim do Yaps, X corta API, token cai 17%, 157 mil yappers): https://www.coindesk.com/business/2026/01/15/kaito-to-sunset-yaps-as-x-cracks-down-on-infofi-apps-token-falls-17
- OAK Research (visão geral do primeiro mercado de atenção): https://oakresearch.io/en/reports/protocols/kaito-complete-overview-first-attention-market
- CoinGecko (Yaps, Studio, market cap atual, projetos pré-TGE): https://www.coingecko.com/learn/what-is-kaito-earn-yap-points
- CryptoRank (FDV de US$ 1,7 bi no lançamento): https://cryptorank.io/ico/kaito
- Messari (fundação 2022, US$ 10,8 mi captados, investidores): https://messari.io/project/kaito
- BeInCrypto (X mata InfoFi, tokens despencam): https://beincrypto.com/x-kills-kaito-infofi-tokens-crash/
- BlockEden (Kaito depois do Yaps, economia da atenção): https://blockeden.xyz/blog/2026/04/18/kaito-yaps-attention-economy-infofi-meritocratic-influence/
- Polygon (leaderboard de mindshare com recompensa): https://polygon.technology/blog/polygon-x-kaito-leaderboard-is-live-grow-mindshare-grow-rewards
- Lombard Docs (1,6 mi de BARD pros yappers): https://docs.lombard.finance/community/kaito-yappers
- Crypto.com Research (definição de InfoFi): https://crypto.com/us/research/infofi-jun-2025
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