O modelo de pontos resolveu um problema específico que assombrava o cripto desde os primeiros airdrops: como distribuir um token futuro sem dizer quanto ele vai valer, e ainda assim fazer o usuário se comportar como se valesse muito.
O mecanismo tinha três peças:
- Pontos opacos. Você acumula pontos por usar o produto (depositar, negociar, fornecer liquidez), mas ninguém diz quanto cada ponto vale em token. A incerteza é proposital: sem preço definido, o usuário maximiza por garantia e deposita mais do que faria se soubesse o número.
- Promessa implícita de airdrop. Os pontos sinalizam que um token virá, e que quem tem mais pontos leva mais token. O TGE (Token Generation Event, o lançamento do token) vira o prêmio no fim da estrada.
- Multiplicadores e prazos. Boosts por referral, por staking, por usar protocolos parceiros, somados a temporadas com data para acabar. A urgência mantém o produto no noticiário e a atividade subindo.
Junte as três e você tem uma máquina de TVL (TVL = total de ativos depositados nos contratos do protocolo). Capital entra rápido, atividade dispara, manchete se renova a cada temporada. O problema é que nenhuma das três peças constrói motivo para ficar depois que o token cai. Esse é o furo que os casos abaixo expõem, um a um.
Blur: como pontos derrubaram a líder do mercado de NFTs
A OpenSea dominou o mercado de NFTs por anos. Era o nome padrão, a liquidez padrão, a primeira aba que qualquer comprador abria. Em fevereiro de 2023, a Blur entrou com uma proposta simples e afiada: zero taxa de marketplace, royalties opcionais e um programa de pontos que recompensava quem negociava e quem deixava ofertas no livro.
O resultado foi imediato e contundente. Em poucas semanas, a Blur ultrapassou a OpenSea em volume diário negociado. O ataque mirou exatamente o ponto cego da líder: a OpenSea ganhava na taxa, e a Blur transformou essa taxa em desvantagem, devolvendo o valor ao trader em forma de pontos. O usuário profissional, que move a maior parte do volume, foi atrás do incentivo.
A lição da Blur é a mais limpa do ciclo: pontos não são um detalhe de retenção, são uma arma de aquisição capaz de virar um mercado consolidado. Mas a mesma força que tomou o volume da OpenSea criou um mercado de farmers que negociavam para gerar pontos, não para colecionar. Volume inflado por incentivo não é a mesma coisa que demanda real, e foi essa distinção que junho de 2024 cobraria de todo mundo.
Blast: a rede como funil de pontos antes do produto
A Blast levou o modelo ao extremo. Em vez de um produto com pontos, ela lançou pontos com uma rede acoplada. Anunciada no fim de 2023 e aberta em fevereiro de 2024, a proposta era uma L2 que pagava yield nativo sobre ETH e stablecoins depositados, e distribuía pontos por esse depósito, tudo antes de haver aplicações relevantes rodando na rede.
A captação foi vertiginosa. Nos primeiros dias após o anúncio, a Blast acumulou cerca de US$ 535 milhões em depósitos travados, a fase de captação rápida inicial. Em sete dias, o patamar subiu para cerca de US$ 613 milhões em TVL: o primeiro número marca a entrada de capital nas horas iniciais, o segundo o nível alcançado ao fim da primeira semana. A rede entrou na lista das maiores L2s por TVL antes de ter ecossistema para sustentar aquele dinheiro.
E aqui está a inversão que define a Blast: o capital chegou antes do produto. Normalmente você constrói algo, atrai usuários e depois eles trazem dinheiro. A Blast trouxe o dinheiro primeiro, com a promessa de que o produto e o token justificariam a espera. Funcionou para encher o cofre. A pergunta que ficou pendente, e que o modelo de pontos sempre adia, é o que segura esse capital quando o airdrop acontece e a promessa se realiza.
zkSync: o airdrop que esvaziou a rede
Se a Blur mostrou o poder de aquisição dos pontos e a Blast mostrou o extremo do modelo, a zkSync mostrou a fatura. A rede passou meses como uma das principais candidatas a airdrop do ecossistema Ethereum, com milhões de carteiras interagindo com seus contratos na expectativa do token. A atividade era altíssima. Quase toda ela era farming.
Em junho de 2024, o airdrop saiu. E a atividade da rede caiu 79,7% nos meses seguintes. Os endereços que inflavam as métricas estavam ali pelo token, não pela rede. No instante em que receberam o que vieram buscar, sumiram. O que parecia uma comunidade vibrante era uma fila de saque esperando a porta abrir.
A zkSync é o caso-controle do playbook: prova que a métrica que os pontos inflam (carteiras ativas, transações, TVL) pode não ter relação nenhuma com demanda real. Quando o incentivo é o único motivo de uso, a retirada do incentivo zera o uso. Não é falha de execução do airdrop. É a natureza de qualquer crescimento comprado por promessa de token.
EigenLayer: distribuição mal calibrada vira crise de confiança
O EigenLayer trouxe ao ciclo a narrativa do restaking (reaproveitar ETH já em staking para garantir outros protocolos, ganhando uma segunda camada de rendimento) e, com ela, uma das maiores campanhas de pontos da história. Bilhões de dólares em ETH e em LRTs (Liquid Restaking Tokens, versões líquidas do ETH restakeado) foram depositados por meses na expectativa do airdrop do token EIGEN. A captação foi um sucesso. A distribuição foi onde a coisa desandou.
Quando os detalhes do airdrop saíram, a alocação decepcionou parte relevante da base: a fatia destinada à comunidade de depositantes ficou em torno de 15% do supply na primeira temporada, enquanto investidores e equipe somavam parcelas maiores, e o token vinha com restrições de transferência e exclusão geográfica de vários países, incluindo usuários dos Estados Unidos. Quem farmou por meses sentiu que a régua mudou no fim do jogo.
A reação foi rápida e mensurável. Nos dias seguintes ao anúncio, dezenas de milhares de ETH foram sacados dos contratos de restaking, em uma fuga de centenas de milhões de dólares em valor depositado. O capital fez a leitura na ponta do lápis: se a recompensa não compensa o risco de continuar travado, sai. A campanha que tinha enchido o protocolo de TVL virou, em uma semana, um estudo de caso sobre como uma distribuição mal calibrada transforma farmers em ex-usuários ressentidos.
A lição do EigenLayer afina a do zkSync. Não basta o token existir: a forma como ele é distribuído é, em si, um ato de marketing. Uma alocação percebida como injusta não só perde o farmer, ela queima a confiança que sustentaria a próxima temporada. E essa fragilidade de calibragem foi exatamente o que junho de 2024 expôs em escala.
Junho de 2024: quando o template colidiu três vezes com a mesma parede
Junho de 2024 foi quando o template colidiu três vezes seguidas com a mesma parede. zkSync, LayerZero e outros airdrops longamente farmados chegaram quase juntos, e o mercado reagiu da mesma forma a todos: euforia de um dia, despejo nas semanas seguintes. O farmer profissional já tinha otimizado o ciclo inteiro. Recebia o token, vendia, e migrava a operação para a próxima rede que prometia airdrop. A atividade não era lealdade, era um circuito de captura que se desmontava no momento exato do TGE.
Dentro desse colapso de junho mora um risco que poucos viram na hora: a dependência em cadeia. O Pendle, protocolo de tokenização de yield (separar um ativo que rende em duas partes, o principal e o rendimento futuro, para negociar cada uma), virou peça central da engrenagem de pontos. Protocolos como EigenLayer e os LRTs usavam o Pendle para que os usuários alavancassem exposição a pontos, empilhando incentivo sobre incentivo. O Pendle multiplicava o farming, e isso o tornou indispensável e perigoso ao mesmo tempo: quando a temporada de pontos de um parceiro acaba ou a alocação decepciona, o desmonte não fica contido em um protocolo, ele se propaga por toda a corrente de dependência. O risco do EigenLayer virava risco do Pendle, que virava risco do próximo elo. Empilhar incentivo é empilhar fragilidade.
Junho de 2024 é o divisor de águas do playbook. Antes dele, pontos eram crescimento garantido. Depois dele, o mercado aprendeu a precificar a saída antes mesmo da entrada, e o farmer passou a tratar cada campanha como um trade com data de validade. O modelo não morreu. Mas perdeu a inocência.
Ethena: a execução que quase resolveu o problema
A Ethena é o caso que mais se aproxima de fazer o modelo de pontos funcionar de verdade, e por isso mesmo o mais instrutivo. O produto, o USDe, é um basis trade delta-neutral (um ativo comprado e protegido por um short equivalente, capturando o funding rate sem aposta direcional) vendido ao varejo como "the internet bond", um dólar que rende. A tradução fez o que a engenharia sozinha nunca faria.
O programa de pontos foi exemplar. A Shard Campaign, aberta em fevereiro de 2024, empilhou multiplicadores e terceirizou o próprio growth: ao dar pontos boostados para quem usava USDe em protocolos parceiros, a Ethena transformou a economia de pontos inteira do DeFi em canal de distribuição. O supply do USDe cruzou US$ 1 bilhão em poucas semanas. Em 2 de abril de 2024 veio o TGE do token ENA, e no mesmo dia começou a Sats Campaign, a segunda temporada de pontos.
E aqui está o que separa a Ethena do resto. Quando o token ENA caiu mais de 80% nos meses seguintes ao lançamento, o USDe não esvaziou junto. Foi a Sats Campaign, com peso maior nos mercados de perp de Bitcoin, que empurrou a adoção para um novo patamar: ao longo de 2024 e 2025, o supply de US$ 1,35 bilhão da primeira temporada se transformou em um pico de TVL na casa de dois dígitos de bilhões. O produto existia antes dos usuários chegarem, segurou capital mesmo com o token despencando, e foi isso que comprou tempo para a próxima temporada. Esse é o fator decisivo: ter um produto real embaixo da campanha de pontos, e não só a campanha.
Mas até a melhor execução do ciclo esbarrou no mesmo limite. Quando o yield comprimiu da faixa de dois dígitos para um dígito e os pontos perderam o brilho, o capital mercenário fez o que sempre faz. Bilhões saíram, e o TVL caiu para menos da metade do pico nas semanas seguintes. A Ethena fez aquisição de classe mundial e ainda assim teve a retenção amarrada num número de mercado que ela não controla. A diferença é que, ao contrário do zkSync, sobrou produto depois que a multidão foi embora.
O estado atual e para onde o modelo foi
De 2024 a 2026, o playbook de pontos passou de fórmula mágica a ferramenta conhecida e precificada. O mercado aprendeu cada movimento, e isso mudou tudo.
O farmer ficou profissional. Existem hoje operações dedicadas a otimizar campanhas de pontos em escala industrial, com capital alocado para entrar no dia em que abre e sair no dia em que o token desbloqueia. A atividade que os pontos geram é, em boa parte, esse capital rotativo, que não tem nenhuma intenção de virar usuário. Os projetos sabem disso e mesmo assim ligam a máquina, porque a métrica de TVL ainda vende rodada, manchete e listagem.
O modelo também se sofisticou para se defender de si mesmo. Vesting mais longo, alocação maior para uso comprovado em vez de volume bruto, critérios anti-sybil para filtrar carteiras fabricadas, e temporadas encadeadas que tentam transformar o farmer em residente antes que o incentivo acabe. São tentativas de resolver o furo estrutural: como fazer ficar quem só veio pelo ponto.
A verdade que o ciclo inteiro deixou é simples. Pontos são uma das ferramentas de aquisição mais poderosas já inventadas no marketing digital, dentro ou fora do cripto. Em meses, derrubaram a líder de um mercado, encheram redes inteiras de capital e construíram protocolos de bilhões. Mas aquisição não é retenção, e nenhum programa de pontos jamais comprou lealdade. O que os pontos compram é tempo. O que você faz com esse tempo (construir um produto que valha a pena ficar) é o que decide se a curva de entrada vira patrimônio ou só uma fila de saída esperando a porta abrir. Pontos que pagam por aparecer entregam plateia. Quem confunde plateia com base paga a conta no primeiro TGE.
O que a Kaleidos tira disso
- Pontos são CAC, não retenção. Gamificar incentivo enche o gráfico de aquisição numa velocidade que nenhum canal pago alcança, mas o capital que entra pelo incentivo sai pelo incentivo. Antes de ligar a máquina, defina o motivo de ficar que não depende do ponto. A Ethena tinha produto embaixo e sobreviveu; o zkSync não tinha e esvaziou 79,7%.
- A distribuição é um ato de marketing, não de logística. O EigenLayer mostrou que uma alocação percebida como injusta queima mais valor de marca do que o airdrop gera. Quem vai distribuir token (ou qualquer recompensa) precisa tratar a régua de distribuição como mensagem, porque o mercado a lê como uma.
- Incentivo empilhado é fragilidade empilhada. O Pendle multiplicou o farming e, com ele, o risco em cadeia: quando uma temporada de pontos quebra, o estrago se propaga por toda a corrente de dependência. Vale para airdrop, para programa de afiliados, para qualquer crescimento construído sobre incentivo de terceiros. Mapeie de quem o seu crescimento depende antes de comemorar a curva.