Points program que retém vs. que destrói: por que a Lombard segurou e a Blast desabou
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Points program que retém vs. que destrói: por que a Lombard segurou e a Blast desabou
Nos últimos dois anos, points program virou o botão fácil do growth cripto. Todo protocolo que quer tração rápida abre uma temporada de pontos, promete um airdrop no fim, e vê o TVL subir. O gráfico anima o founder, anima o investidor, anim
Resumo
Nos últimos dois anos, points program virou o botão fácil do growth cripto. Todo protocolo que quer tração rápida abre uma temporada de pontos, promete um airdrop no fim, e vê o TVL subir. O gráfico anima o founder, anima o investidor, anim
Gabriel Madureira
Points acelera produto bom e escancara produto ruim.
Cripto
Points program que retém vs. que destrói: por que a Lombard segurou e a Blast desabou
Nos últimos dois anos, points program virou o botão fácil do growth cripto. Todo protocolo que quer tração rápida abre uma temporada de pontos, promete um airdrop no fim, e vê o TVL subir. O gráfico anima o founder, anima o investidor, anima o Discord. E aí a temporada acaba, o token é distribuído, e boa parte desse número evapora em questão de dias.
A Kaleidos vê o mesmo erro de leitura se repetir: o time trata o points program como a causa da tração, quando ele é só o acelerador. Points não conserta falta de product-market fit. Ele amplifica o que já existe. Se existe um produto que as pessoas usariam mesmo sem incentivo, o points multiplica a adoção. Se não existe, o points aluga usuários por um tempo e cobra a conta na distribuição.
Duas distribuições recentes mostram os dois lados dessa moeda com clareza quase didática: a Lombard, que desenhou o incentivo pra punir capital mercenário, e a Blast, que otimizou o número de vaidade e pagou o preço quando ele virou pó.
O que um points program realmente faz (e o que ele não faz)
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O ponto de partida honesto é entender o mecanismo. Um points program distribui unidades não transferíveis que prometem valor futuro em token. Diferente do airdrop de snapshot único, ele cria um loop de engajamento que dura meses, e é isso que o torna poderoso: filtra por comprometimento, adia gratificação e gera dado sobre o comportamento real do usuário antes do TGE.
O problema é que esse mecanismo funciona nos dois sentidos. Ele atrai gente que quer usar o produto e gente que quer farmar o token e sair. A composição dessa mistura não é decidida pelo points. É decidida pelo produto. A Friend.tech ilustra o extremo: o app explodiu na largada e depois viu os usuários ativos diários caírem de mais de 20 mil para menos de 1 mil em poucos meses, segundo levantamento da Defiprime. Points sozinho não sustenta engajamento quando não há valor intrínseco embaixo. Ele só adia a data em que a falta desse valor aparece no gráfico.
A régua prática que a Kaleidos aplica em qualquer diagnóstico: se o seu protocolo desaparece no instante em que os pontos param, você nunca teve retenção. Teve um aluguel de liquidez com data de despejo marcada.
Blast: o points que otimizou o número de vaidade
A Blast é o caso-escola do points program que confunde TVL com tração. A L2 acumulou bilhões em depósitos durante a fase de pontos, com o TVL batendo cerca de US$ 2,3 bilhões no começo de junho de 2024, semanas antes do token generation event. O número era espetacular e enganoso ao mesmo tempo.
Quando o airdrop foi distribuído em 26 de junho de 2024, entregando 17% do supply e centenas de milhões de dólares aos usuários, o incentivo que segurava aquele capital simplesmente sumiu. O resultado foi imediato: o TVL despencou mais de 30% nas semanas seguintes à distribuição e acumulou uma queda de cerca de 60% em menos de dois meses, com a rede perdendo mais de US$ 300 milhões de liquidez só no começo de agosto, segundo cobertura da The Defiant. Nas piores janelas de capitulação de 2024, a queda de TVL passou de 50%.
A leitura errada seria culpar o airdrop. O airdrop foi só o gatilho. O que a Blast tinha era um produto cujo principal motivo de uso era o próprio rendimento nativo e a promessa do token. Tirou o incentivo, tirou o motivo. O points program funcionou perfeitamente pra atrair capital, e é justamente por isso que ele foi tão destrutivo: ele encheu a base de gente que só estava ali pelo brinde, e vendeu isso pro mercado como comunidade.
Lombard: o incentivo desenhado pra punir o mercenário
A Lombard partiu da mesma ferramenta e chegou no oposto. Em vez de recompensar volume bruto, o programa dela recompensou duração. Nas temporadas 1 e 2, que juntas distribuíram 30 milhões de tokens BARD em março, cada LBTC em stake gerava pontos-base multiplicados por um fator de duração: quem segurava a posição por mais tempo acumulava até 2x os pontos de quem entrava e saía rápido. E havia a trava que muda tudo: uma penalidade de cooldown que zerava o multiplicador acumulado no momento em que o usuário sacava.
Isso reescreve o incentivo na raiz. O farmer mercenário, que entra pra farmar e sai antes do TGE, é matematicamente punido: ele nunca chega perto do multiplicador máximo e perde tudo se antecipar a saída. Quem recebe as maiores fatias é, por construção, quem tem menos motivo pra vender no dia 1.
O efeito apareceu no preço. No dia da distribuição, o BARD caiu 19,4%, de US$ 1,70 para US$ 1,32 em 24 horas, com US$ 93,17 milhões de volume, segundo o Crypto News Navigator. Uma queda real, mas a fração do desastre da Blast. A própria análise atribui a diferença ao desenho: os maiores recebedores eram os menos propensos a despejar, porque o mecanismo os selecionou por paciência, não por tamanho de carteira.
Vale a honestidade: a Lombard também é um produto de rendimento sobre Bitcoin, categoria sensível a fuga de capital. O ponto não é que ela seja imune. É que o desenho do incentivo comprou a ela uma distribuição ordenada em vez de uma corrida pra porta. O mesmo remédio, doses opostas de dano.
Na distribuição, o BARD da Lombard caiu 19,4% enquanto o TVL da Blast desabou cerca de 60% em menos de dois meses — Fonte: Crypto News Navigator / The Defiant
A matriz retenção × incentivo
Cruzando os dois eixos que realmente importam, força do produto (existe motivo pra ficar sem incentivo?) e desenho do incentivo (ele recompensa duração ou volume?), surgem quatro cenários que a Kaleidos usa como primeiro filtro:
Incentivo pró-duração
Incentivo pró-volume
Produto com PMF
Composto. Points acelera adoção real e a base sustenta pós-TGE. Ideal. (rumo Lombard/Ethena)
Vazamento controlado. O produto segura parte, mas o incentivo atrai mercenário demais. Corrigível.
Produto sem PMF
Adiamento honesto. O desenho segura o dump por um tempo, mas sem motivo de uso a base some depois. Ganha fôlego, não resolve.
Colapso. Number vai à lua, distribui, evapora. É o quadrante Blast.
A leitura é dura mas libertadora: o desenho do incentivo só te move uma casa. O produto te move de linha. Nenhum multiplicador de duração salva um protocolo que ninguém usaria de graça. E nenhum PMF sobrevive intacto a um incentivo que convida o mundo inteiro a farmar e despejar. A Ethena é o exemplo do quadrante bom: empilhou pontos em cima de utilidade real (stablecoin de rendimento), e chegou a US$ 3 bilhões de supply sustentado, segundo a Defiprime. Points ali foi tempero, não o prato.
Checklist: seu points program vai colapsar? 7 sinais
Antes de abrir qualquer temporada, a Kaleidos roda esta bateria. Três ou mais respostas "sim" e o programa está desenhado pra virar gráfico de dump:
O TVL é o KPI principal do dashboard? Se o número que anima o time é liquidez bruta e não holders únicos, retenção pós-saque e usuários ativos recorrentes, você está medindo vaidade.
Volume bruto vale mais que tempo de permanência na fórmula de pontos? Sem multiplicador de duração, você está literalmente pagando mais pro capital mais mercenário.
Sacar não custa nada? Sem penalidade de cooldown que zere multiplicador, nada segura o usuário no dia seguinte à distribuição.
O usuário usaria o produto se o points sumisse hoje? Se a resposta honesta é não, o points está mascarando ausência de PMF, não construindo tração.
A maior fatia do airdrop vai pra quem entrou por último? Programas que não escalam recompensa por comprometimento concentram valor em whale oportunista e Sybil. Em um caso citado pela Defiprime, 70% das recompensas foram reivindicadas por contas falsas.
Existe expectativa não gerenciada de conversão pontos→token? Backlash de comunidade quando a razão decepciona, mesmo sem promessa formal, é um dos maiores destruidores de sentimento pós-TGE.
O plano pós-distribuição é "torcer"? Se não há utilidade, governança ou razão de uso desenhada pro dia seguinte ao airdrop, o dia seguinte é o precipício. A própria Defiprime aponta que muitos protocolos veem a atividade cair mais de 50% logo após o lançamento do token.
Cada "sim" é uma alavanca a corrigir antes de distribuir, não depois. Depois é diagnóstico de autópsia.
O que a Kaleidos retém disso
Points program é um megafone, não um alicerce. Ele grita o que já existe. Um produto com motivo real de uso amplificado por um incentivo que recompensa paciência é o composto que sustenta comunidade depois do TGE. Um produto vazio amplificado por um incentivo que recompensa volume é uma bomba-relógio com data marcada na distribuição.
A diferença entre a Lombard e a Blast não foi sorte de mercado nem timing de ciclo. Foi decisão de desenho tomada meses antes, sobre o que o programa recompensava e sobre o que existia embaixo dele. Uma escolheu punir o mercenário e proteger a comunidade. A outra escolheu o número bonito e descobriu, no dia do saque, que número bonito não é lealdade.
Se o seu projeto está prestes a abrir uma temporada de pontos, o primeiro trabalho não é definir a mecânica de recompensa. É responder, sem se enganar, se alguém ficaria sem ela. É esse diagnóstico que a Kaleidos monta antes de qualquer campanha de incentivo.
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