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Uniswap: o airdrop que escreveu o manual (e a conta que demorou cinco anos)

Em setembro de 2020 a Uniswap distribuiu 400 UNI pra cada uma das mais de 250 mil carteiras que já tinham usado o protocolo, e inventou o airdrop retroativo bem feito que virou template. Mas 93% dos endereços já venderam tudo, e a pergunta pra que serve o token demorou cinco anos pra fechar.

Resumo

O airdrop retroativo da Uniswap (400 UNI a 250 mil carteiras) nasceu do ataque vampiro da SushiSwap, virou template de indústria e fez a marca virar verbo. Mas foi caro como aquisição (93% dumparam, payback de quase 6 anos) e o token ficou cinco anos sem capturar valor, até o fee switch e a queima de US$ 596 milhões em dezembro de 2025.

Gabriel MadureiraGabriel Madureira

Uniswap: o airdrop que escreveu o manual (e a conta que demorou cinco anos)

TL;DR

Continue por dentro

Um estudo denso por quinzena, direto no seu email.

Os bastidores de por que tokens e projetos crescem. Sem ruído, sem spam.

  • Em 17/set/2020, a Uniswap distribuiu 400 UNI pra cada endereço que já tinha tocado o protocolo, mais de 250 mil carteiras, sem claim complicado, sem trabalho, sem nada além de ter usado o produto antes. No dia, isso valia cerca de US$ 1.200 por pessoa. Em dias, passou de US$ 2.800. Foi o airdrop que virou template pra indústria inteira.
  • A jogada não nasceu de generosidade pura. Nasceu de pânico. Onze dias antes, a SushiSwap tinha sugado mais de US$ 800 milhões de liquidez da Uniswap num ataque vampiro. O UNI foi, em parte, a resposta defensiva. Marketing nasce de ameaça real mais vezes do que a gente admite.
  • A tese de marca que sobreviveu a tudo: a Uniswap virou verbo. "Vou uniswapear esse token" entrou no vocabulário de DeFi do jeito que "googlar" entrou no vocabulário da web. Quando o nome do produto vira a ação genérica da categoria, você ganhou o jogo de posicionamento antes de gastar um real em mídia.
  • O furo que ninguém gosta de citar: o airdrop, como ferramenta de aquisição, foi caro e ineficiente. 93% dos endereços que receberam já venderam tudo. A análise de Tomasz Tunguz estimou payback de quase 6 anos sobre o custo, contra 1,4 ano de uma startup normal. O airdrop fez história de marca. Como canal de retenção, foi um balde furado de luxo.
  • E a conta de tokenomics demorou cinco anos pra fechar. Por meia década o UNI foi um token de governança sem direito a um centavo da receita. Só em dez/2025, via proposta UNIfication aprovada com 99,9% dos votos, o protocolo finalmente ligou o "fee switch" e queimou ~US$ 596 milhões em UNI. O case ensina os dois lados: como distribuir bem, e o preço de adiar a pergunta "pra que serve esse token".

O case que todo airdrop copiou sem ler a letra miúda

Tem um gesto que praticamente todo projeto cripto dos últimos cinco anos repetiu: dar token de graça pra quem usou o produto antes do token existir. Recompensar o passado. Transformar usuário antigo em sócio retroativo. Esse gesto tem uma certidão de nascimento, e ela tem data: 17 de setembro de 2020.

A Uniswap não inventou o airdrop. Mas inventou o airdrop retroativo bem feito, e fez isso com tanta força que virou gramática. Depois dela, todo fundador de DeFi passou a pensar "e se eu guardar uma fatia do supply pros early users?". Notcoin, Optimism, Arbitrum, Jupiter, Ethena, a lista inteira de cases que a gente já dissecou neste blog bebe da fonte que a Uniswap abriu.

O problema é que quase todo mundo copiou a estética e ignorou a contabilidade. Copiou o gesto bonito ("recompensamos a comunidade") e não copiou a pergunta difícil ("isso retém ou só compra um aplauso caro?"). Por isso vale destrinchar o original inteiro: o que deu certo de verdade, o que foi mito, e a conta que levou cinco anos pra aparecer no extrato.

Os números que contam a história inteira

Antes da narrativa, a foto. Seis números que, lidos juntos, mostram um case que é triunfo de marca e advertência de tokenomics ao mesmo tempo.

O númeroO que significa
400 UNI por endereçoDistribuído a mais de 250 mil carteiras que tinham usado o protocolo antes de 01/set/2020. No dia, ~US$ 1.200 por pessoa. Em poucos dias, mais de US$ 2.800.
15% do supply no airdrop150 milhões de UNI (de 1 bilhão) reservados pra usuários históricos e provedores de liquidez. Parte de uma alocação de 60% pra comunidade.
+US$ 800 mi sugados em diasO que a SushiSwap drenou da Uniswap no ataque vampiro logo antes do lançamento do UNI. O contexto que forçou a jogada.
93% já venderam tudoDos endereços que receberam o airdrop, 80% venderam em 30 dias, 85% em 90 dias, 93% no acumulado. Só ~6,7% ainda seguram.
+US$ 3 trilhões de volumeA Uniswap foi a primeira DEX a cruzar US$ 3 trilhões em volume acumulado (maio/2025). Líder histórica do segmento.
5 anos até o token valer algoO "fee switch" só foi ligado em dez/2025, com a UNIfication. Meia década de UNI sem direito a receita.
Uma régua de honestidade que vale pro texto todo: o market share da Uniswap oscila muito conforme a janela. Reportagens citam de ~23% a ~36% do volume DEX em momentos diferentes de 2025, e houve trechos de 2024 em que Hyperliquid e Raydium passaram a Uniswap. Liderança histórica é fato. Dominância eterna não é. A faixa é a verdade.

A jogada em fases

Fase 1: o protocolo que virou infraestrutura silenciosa

Antes do token, a Uniswap já tinha feito a parte mais difícil: virar peça de encanamento. Hayden Adams construiu o protocolo em 2018 com uma ideia simples e radical, o automated market maker (AMM), a fórmula matemática que substitui o livro de ofertas tradicional por uma piscina de liquidez e uma curva de preço. Sem intermediário, sem cadastro, sem permissão. Qualquer um lista qualquer token.

Por dois anos a Uniswap cresceu sem token nenhum. Sem incentivo especulativo, sem farm, sem airdrop prometido. Cresceu porque resolvia um problema real: trocar tokens on-chain de forma simples, num momento em que o resto do DeFi era complicado e hostil. Esse é o detalhe que quase todo imitador pula. O airdrop veio depois de o produto já ser indispensável, não antes. A Uniswap não usou token pra comprar relevância. Usou token pra coroar uma relevância que já existia.

Fase 2: o ataque vampiro que forçou a mão

Aqui mora a parte que os textos românticos sobre o UNI costumam apagar. Em agosto de 2020, um fundador anônimo chamado "Chef Nomi" lançou a SushiSwap, um clone quase idêntico da Uniswap, com uma diferença: tinha token. A SUSHI recompensava quem depositasse liquidez, e o golpe de mestre foi exigir que o depósito fosse feito em tokens de LP da própria Uniswap. Traduzindo: a Sushi usou a liquidez da Uniswap como isca pra sequestrar a liquidez da Uniswap.

Funcionou de forma brutal. Em poucos dias, a SushiSwap migrou mais de US$ 800 milhões de liquidez pra fora da Uniswap, num movimento que entrou pra história do cripto como "ataque vampiro". A lição de marketing era nua e crua: produto excelente sem token defensável pode ser drenado por um clone com incentivo melhor. A liquidez é mercenária. Ela vai onde paga mais.

O UNI foi a resposta. Não a única motivação, mas é ingenuidade fingir que o timing foi coincidência. A Uniswap precisava de um motivo pra liquidez ficar, e o token virou esse motivo. Marketing nasce de ameaça competitiva muito mais vezes do que o storytelling oficial deixa transparecer. O que parece visão de fundador, visto de perto, às vezes é reação a uma faca no pescoço.

Fase 3: o airdrop retroativo que premiou o passado

Em 16 de setembro de 2020, a Uniswap anunciou o UNI. E a mecânica era de uma elegância que explica por que virou template: 400 UNI pra qualquer endereço que já tivesse chamado os contratos da v1 ou v2. Não importava o tamanho. Não importava se você tinha movido US$ 5 ou US$ 5 milhões. Tocou o protocolo antes do snapshot de 01/set, recebeu os mesmos 400 tokens. Até endereços que só tinham mandado transações que falharam (cerca de 12 mil deles) ganharam.

A simplicidade era a mensagem. Sem tarefa, sem quiz, sem KYC, sem trabalho. Você abria o app, via o botão de claim, clicava, recebia. A UX do airdrop comunicava a tese da Uniswap inteira: cripto deveria ser simples e sem porteiro. O gesto era coerente com o produto.

"Com 15% dos tokens já disponíveis pra usuários históricos e provedores de liquidez, o tesouro de governança vai reter 43% do supply de UNI pra distribuir de forma contínua via grants, iniciativas de comunidade e liquidity mining."

— Introducing UNI, anúncio oficial (set/2020)
A distribuição de 60% pra comunidade era uma declaração política num momento em que VCs dominavam o cap table de quase todo projeto. A Uniswap dizia, com a alocação, de que lado estava.

Fase 4: o nome que virou verbo

E aqui está a conquista de marca que nenhum airdrop compra: a Uniswap virou verbo. No jargão de DeFi, "uniswapear" um token virou a forma genérica de dizer "trocar on-chain", do mesmo jeito que "googlar" virou a forma genérica de "buscar". Quando o nome da sua marca substitui a categoria inteira na boca das pessoas, você atingiu o topo absoluto do posicionamento. Não é mais "uma DEX". É a DEX, o padrão mental contra o qual todas as outras são comparadas.

Isso não veio do airdrop. Veio de anos sendo o lugar default onde a liquidez vivia, a interface que todo mundo abria, o protocolo que todo agregador integrava primeiro. O airdrop amplificou e selou um posicionamento que o produto já tinha construído. É a ordem certa: produto cria a posição, token celebra a posição. Quem inverte (token primeiro, produto depois) está tentando comprar um verbo que não se vende.

Os números (porque tese sem dado é achismo)

A distribuição do supply (1 bilhão de UNI) revela a aposta política do projeto:

Alocação% do supply
Comunidade (airdrop 15% + tesouro/grants/mining)60,00%
Time e funcionários futuros (vesting de 4 anos)~21,27%
Investidores (vesting de 4 anos)~18,04%
Advisors (vesting de 4 anos)0,69%
Fonte: Introducing UNI. Repare: ao contrário da Hyperliquid, houve VC (mais de 18% do supply pra investidores). A Uniswap não foi um case "sem fundo". Foi um case de "comunidade majoritária mesmo com fundo presente". Distinção importante pra não vender o mito errado.

A magnitude do gesto. 400 UNI valiam ~US$ 1.200 no debut de 17/set, com o token oscilando entre US$ 3 e US$ 4 no primeiro dia. Em poucos dias o UNI passou de US$ 7, colocando o pacote acima de US$ 2.800. Pra muita gente em 2020, dinheiro de verdade caído do céu por já ter usado um app.

O alcance. Mais de 140 mil endereços resgataram nos primeiros dias, de um total elegível acima de 250 mil. A escala do gesto, junto com a narrativa de "60% pra comunidade", gerou uma onda de earned media (cobertura espontânea, sem pagar) que nenhum orçamento de ads compraria.

O legado de volume. Em maio de 2025, a Uniswap foi a primeira DEX a cruzar US$ 3 trilhões em volume acumulado, liderando o segmento com cerca de 23% do mercado DEX no período. Processa volume na casa das dezenas a centenas de bilhões por mês, espalhado por dezenas de chains. O airdrop não criou esse volume. Mas blindou a base de liquidez que o sustentou no momento mais frágil.

A mecânica: por que virou template (e por que o template engana)

Esta é a parte que interessa pra quem faz marketing. O airdrop da Uniswap funcionou como ferramenta de marca por três razões claras. E falhou como ferramenta de retenção por uma razão igualmente clara. Os dois fatos convivem. Quem só conta o primeiro está vendendo metade da história.

Jogada 1: recompensar o passado gera lealdade que a propaganda não compra

O airdrop retroativo tem uma psicologia poderosa: ele premia quem já apostou em você quando ninguém apostava. É reciprocidade pura. A pessoa que usou a Uniswap em 2019, quando DeFi era nicho e arriscado, recebe um "obrigado" material anos depois. Esse gesto cria uma relação emocional que ad nenhum reproduz. Você não está comprando atenção. Está reconhecendo fé.

E é defensável contra o farmador. Como o critério era passado consumado (você já tinha usado antes do anúncio), ninguém podia farmar de propósito pra qualificar. O airdrop retroativo, por definição, não pode ser gamificado depois que você o anuncia. Isso o torna mais "honesto" que o programa de pontos prospectivo, em que a galera farma sabendo da recompensa.

Jogada 2: a simplicidade do claim é a mensagem da marca

Quatrocentos tokens, iguais pra todo mundo, um clique. Sem tier, sem fórmula secreta, sem missão. Essa decisão de design comunicava a filosofia da Uniswap (simples, sem porteiro, igualitária) com mais força que qualquer manifesto escrito. O produto e o airdrop diziam a mesma coisa. Coerência entre o que você faz e como você recompensa é uma forma de marketing que muita marca subestima.

Jogada 3: o timing transformou defesa em narrativa

A Uniswap pegou uma situação de fragilidade (a Sushi drenando liquidez) e a transformou numa das maiores histórias positivas de DeFi. O enquadramento foi genial: não "estamos reagindo a um ataque", e sim "estamos devolvendo o protocolo pra comunidade". O mesmo evento, contado por outro ângulo, vira ativo de marca em vez de sinal de fraqueza. Reframing é marketing de alto nível. A faca no pescoço virou o presente pro público.

A contra-jogada: o template que todo mundo copiou já vinha furado

Agora o asterisco que muda tudo. Como canal de aquisição e retenção, o airdrop da Uniswap foi caro e ineficiente, e os dados são impiedosos. A análise on-chain mostrou que 80% dos endereços venderam em 30 dias, 85% em 90 dias, e 93% no acumulado já venderam tudo. Apenas ~6,7% das carteiras ainda seguram UNI. A maioria viu "dinheiro grátis", clicou, vendeu e sumiu. Nem governança nem futuro do token foram atrativos o bastante pra segurar a mão.

A conta financeira é ainda mais dura. Tomasz Tunguz calculou que, tratando o airdrop como custo de aquisição de cliente, a campanha custou ~US$ 351 milhões e teve payback estimado em quase 6 anos, contra 1,4 ano de uma startup privada típica. A conclusão dele foi direta: airdrops, do jeito que eram estruturados, eram um canal de marketing ineficiente, de 4 a 7 vezes mais caro que gastar o mesmo em vendas e marketing tradicional.

Aqui está a armadilha do template. Milhares de projetos copiaram a estética do airdrop da Uniswap (dar token pra comunidade, gerar manchete, celebrar a distribuição) sem olhar os 93% de dump. Copiaram o aplauso e ignoraram o balde furado. O airdrop fez a Uniswap virar lenda de marca. Mas se o teu único objetivo é reter usuário, ele é uma das formas mais caras de não conseguir isso.

O furo: cinco anos de um token que não fazia nada

Marketing honesto mostra o asterisco maior. E o maior do UNI não é o dump. É a pergunta que a Uniswap evitou por meia década: pra que serve esse token?

Por cinco anos, o UNI foi um token de governança e nada mais. Você podia votar em propostas. Você não recebia um centavo da receita do protocolo. Todas as taxas de trading iam pros provedores de liquidez. O UNI, apesar de ser o token do maior DEX do mundo, não tinha nenhum elo econômico direto com a atividade da plataforma. Era um token de bilhões de dólares de market cap lastreado em... direito de votar.

O debate sobre ligar o "fee switch" (o mecanismo que redirecionaria parte das taxas pros holders) começou já em 2020 e travou por anos. Governança escolheu deixar desligado, citando crescimento, liquidez e, principalmente, cautela regulatória: ligar a torneira poderia transformar o UNI num security aos olhos da SEC. Resultado: um descompasso crescente entre o tamanho colossal do produto e a inutilidade econômica do token. Holders perguntavam, ano após ano, por que o token do maior DEX do mundo não capturava nenhum valor.

A virada só veio em dezembro de 2025. A proposta UNIfication, puxada por Uniswap Labs e Uniswap Foundation, finalmente ligou os protocol fees e criou um mecanismo de queima. A votação foi esmagadora: mais de 125 milhões de votos a favor, 742 contra, 99,9% de aprovação. E veio com um gesto retroativo carregado de simbolismo: a queima de 100 milhões de UNI do tesouro, ~US$ 596 milhões, pra "refletir as taxas que teriam acumulado se o fee switch estivesse ligado desde a criação do protocolo, em 2018".

Leia essa última frase de novo. A própria Uniswap admitiu, em forma de queima, que deixou valor na mesa por sete anos. A correção foi celebrada. Mas a lição pra quem faz marketing e tokenomics é dura: distribuir bem o token não te isenta de responder pra que ele serve. A Uniswap acertou a distribuição em 2020 e adiou a utilidade até 2025. Os dois fatos compõem o case completo.

Os outros riscos que ficam na mesa:

  • Centralização de fato na governança: a influência da Uniswap Foundation sobre a DAO virou pauta de audiência no Congresso americano, com um congressista questionando se a decisão "unilateral" da Foundation enfraquece a alegação de descentralização. "Comunidade decide" no discurso nem sempre é "comunidade decide" no on-chain.
  • Dependência de liquidez mercenária: o ataque vampiro da Sushi provou em 2020 que a liquidez vai onde paga mais. O risco nunca sumiu de vez. Concorrentes com incentivo melhor seguem capazes de drenar share.
  • Risco regulatório como camisa de força: o medo de virar security travou a evolução do token por anos. Foi prudência legítima, mas também foi paralisia. O ambiente regulatório de 2025 é que finalmente destravou a UNIfication.
  • Commoditização do AMM: a fórmula que a Uniswap popularizou é pública e copiável. Dezenas de forks (Sushi incluso) rodam o mesmo motor. O fosso da Uniswap nunca foi a tecnologia. Foi a marca, a liquidez e o verbo. Fossos de marca são reais, mas exigem manutenção eterna.

O que dá pra replicar (inclusive no Brasil)

Tirando o ruído, o case ensina quatro coisas, duas de inspiração e duas de cautela:

  1. Recompensar o passado é a forma mais defensável de incentivo. Premiar quem já usou seu produto antes de qualquer promessa de recompensa gera lealdade genuína e não pode ser farmado. Vale pra qualquer programa de fidelidade, não só pra token. O cliente que apostou em você cedo merece, e lembra, do reconhecimento.
  2. Coerência entre produto e recompensa é marketing. O claim simples da Uniswap dizia a mesma coisa que o produto simples. Quando a forma como você recompensa contradiz o que você prega, o público sente. Alinhe os dois.
  3. Distribuir não é reter. Não confunda aplauso com lealdade. Os 93% de dump são o aviso. Um gesto generoso gera manchete e earned media, mas só o produto retém. Se a estratégia inteira aposta no gesto e o produto não segura, você comprou um pico de atenção caríssimo que evapora em 90 dias.
  4. Responda "pra que serve" antes de distribuir em escala. A Uniswap adiou a utilidade do token por cinco anos e pagou em descompasso de mercado e frustração de holder. Antes de dar algo pra comunidade, tenha clareza do que aquilo faz no longo prazo. Reconhecimento sem função vira pergunta incômoda que volta pra te assombrar.
Pro mercado brasileiro, a tradução quase nunca é "faça um airdrop". É o mecanismo por trás:
  • Reconhecimento retroativo como ativo de relacionamento: o cliente, o aluno, o membro da comunidade que esteve com você no começo merece um gesto material e inesperado. Funciona em programa de indicação, em benefício surpresa pra cliente antigo, em acesso antecipado. O retroativo é mais barato e mais leal que o prospectivo.
  • Defender liquidez (ou clientes) de quem paga mais: o ataque vampiro tem versão em qualquer mercado. Concorrente com oferta agressiva drena sua base. A resposta não é só baixar preço. É construir um motivo de ficar que não seja puramente financeiro: marca, comunidade, hábito, status.
  • Não terceirize a retenção pra um gesto único: o erro de copiar o airdrop da Uniswap é achar que o gesto retém. Ele apresenta. Retenção é o produto, dia após dia. Vale pro lançamento de qualquer coisa: o brinde abre a porta, a experiência mantém o cliente dentro.
O recado honesto fecha o raciocínio: o airdrop da Uniswap foi um triunfo de marca e um fracasso de eficiência de aquisição ao mesmo tempo. Quem te vende só a parte do triunfo está te vendendo metade. O case completo é mais útil: distribua pra construir marca e reciprocidade, sabendo que a retenção é outra batalha, travada no produto, todo dia.

O que a Kaleidos tira disso

  • Gesto vira manchete, produto vira retenção. Antes de desenhar a distribuição mais bonita, a gente pergunta o que segura o usuário depois que o aplauso passa. Os 93% de dump da Uniswap são o lembrete permanente de que earned media e lealdade são coisas diferentes, e que a segunda mora no produto.
  • Coerência é estratégia, não detalhe. O claim simples da Uniswap funcionou porque dizia a mesma coisa que o produto. A gente trabalha pra que cada peça (oferta, campanha, recompensa) repita a mesma tese da marca, em vez de contradizê-la. Incoerência é vazamento de confiança.
  • A pergunta difícil é o trabalho. "Pra que serve isso no longo prazo?" é a pergunta que a Uniswap adiou por cinco anos. É exatamente a que a gente faz primeiro nos projetos cripto que toca no Brasil, porque adiá-la custa caro, e a conta sempre chega.

Fontes

  • Uniswap (Introducing UNI, tokenomics 60% comunidade): https://blog.uniswap.org/uni
  • CoinDesk (debut do UNI, preço de lançamento set/2020): https://www.coindesk.com/markets/2020/09/17/uniswap-recaptures-defi-buzz-with-uni-tokens-airdropped-debut
  • Dune (análise do airdrop, 93% venderam): https://dune.com/blog/uni-airdrop-analysis
  • Tomasz Tunguz (airdrop como CAC, payback de ~6 anos): https://tomtunguz.com/uniswap-airdrop-analysis/
  • Finematics (ataque vampiro da SushiSwap explicado): https://finematics.com/vampire-attack-sushiswap-explained/
  • CoinDesk (Sushi suga +US$ 800 mi da Uniswap): https://www.coindesk.com/markets/2020/09/10/first-mover-defi-vampire-sushiswap-sucks-800m-from-uniswap-bitmex-basis-lags
  • Cointelegraph (primeira DEX a cruzar US$ 3 tri): https://cointelegraph.com/news/uniswap-dex-hit-3-trillion-all-time-volume
  • AInvest (US$ 3 tri, market share ~23%): https://www.ainvest.com/news/uniswap-surpasses-3-trillion-time-volume-leads-dex-market-23-share-2505/
  • DL News (fee switch, token de governança sem receita, audiência no Congresso): https://www.dlnews.com/articles/defi/uni-token-soars-as-uniswap-leadership-proposes-fee-switch/
  • CoinDesk (UNIfication aprovada com 99,9%): https://www.coindesk.com/business/2025/12/26/uniswap-s-token-burn-protocol-fee-proposal-backed-overwhelmingly-by-voters
  • FinanceFeeds (queima de US$ 596 mi em UNI executada): https://financefeeds.com/uniswap-executes-596m-token-burn-after-fee-switch-vote-passes-with-unanimous-support/
  • The Block (140 mil endereços resgataram nos primeiros dias): https://www.theblock.co/linked/78255/140k-addresses-uni-claims

Perguntas frequentes

O que motivou o airdrop da Uniswap?

Em parte, a defesa. Onze dias antes, a SushiSwap tinha sugado mais de US$ 800 milhões de liquidez da Uniswap num ataque vampiro, usando os LP tokens da própria Uniswap como isca. O UNI foi a resposta pra dar um motivo pra liquidez ficar.

O airdrop da Uniswap reteve usuários?

Não. Como canal de aquisição foi caro e ineficiente: 80% venderam em 30 dias, 93% no acumulado, e a análise de Tomasz Tunguz estimou payback de quase 6 anos, de 4 a 7 vezes mais caro que marketing tradicional. O airdrop fez a marca virar lenda, mas distribuir não é reter.

Por que a Uniswap virou verbo?

Uniswapear virou a forma genérica de dizer trocar on-chain, como googlar virou buscar. Mas isso não veio do airdrop, veio de anos sendo o lugar default onde a liquidez vivia. Produto cria a posição, token celebra a posição.

Por que o token UNI ficou cinco anos sem valer nada?

Por cinco anos o UNI foi só governança, sem direito à receita, muito por cautela regulatória (ligar o fee switch poderia torná-lo um security). Só em dezembro de 2025 a proposta UNIfication ligou os fees com 99,9% de aprovação e queimou cerca de US$ 596 milhões em UNI.

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